acaso, amor & lógica

chamou minha atenção a notícia do ex-deputado que bateu no professor de filosofia(!) por ciúmes da mulher, que era sua aluna. tenho horror a violencia física, mas, particularmente, adoro uma baixaria e fui lá conferir os detalhes. e não é que o tal professor tinha me dado aula na faculdade? o que me lembrou uma história que aconteceu justamente com o camarada em questão [que na ocasião usava um penteado péssimo e se alguém tivesse que bater nele definitivamente seria por causa disso]. a matéria era lógica(!) e a avaliação de fim de curso podia ser feita em casa o que, obviamente, eu deixei para o último dia. o trabalho era uma dissertação acerca do acaso, possivelmente fazendo um contraponto entre as visões de kant x spinoza, não tenho certeza.

o fato é que era um domingo e eu passei o dia inteiro batendo cabeça e tentando escrever qualquer coisa que prestasse, sem muito sucesso. acontece que naquela época eu andava apaixonada e o objeto da minha paixão me ligou convidando para um chope. imediatamente o anjinho se colocou na defensiva e disse: "fica em casa, você precisa entregar esse trabalho amanhã", ao que o diabinho respondeu "deixa de ser boba. vai logo!". como acontece na maioria das vezes, o diabinho venceu e tarde da noite cheguei em em casa, bêbada, pra dissertar sobre acaso e lógica. não sem antes escrever uma cartinha totalmente non-sense pra juca, minha companheira de sempre. então eu tive uma possível iluminação e escrevi que foi uma beleza, provavelmente um monte de bobagens, e ainda tasquei-lhe a seguinte epígrafe "e não há lógica que faça desandar o que acaso decidir", que na hora me soou genial. porque só os bêbados podem achar genial misturar kant, spinoza e lulu santos. no final tirei 7.
muitos anos depois tive uma dificuldade enorme pra me formar já que muitas das minhas notas não tinham sido lançadas, entre elas essa de lógica, cujo professor estava fazendo doutorado na frança. claro que não tinha o trabalho corrigido pra comprovar que eu tinha feito e concluído a matéria, mas o diretor da faculdade quebrou um galhão e lançou a nota mesmo assim. aquela nota eu nunca esqueci, porque ela foi fruto da generosidade de um professor.
o cônjuge costuma dizer que as minhas histórias não têm pé nem cabeça e às vezes eu acho que ele tem razão.

confissões inconfessáveis :: o poder de um comentário

o guri chega pra mim e pergunta: "você tá de ressaca, né?"

ora, eu, uma jovem senhora, já quase não bebo muito, não a ponto de ficar de ressaca, pelo menos não durante a semana, respondi sem graça: "não, nem bebi ontem". e ele replicou sem dó: "é que você está com uma cara de quem está de ressaca". poderia até dizer que minha ressaca não era de goró e sim de de algo mais subjetivo, mas eu sabia que ele não estava se referindo aos meus "olhos de ressaca" como os de capitu, mas aos meus olhos cheios de olheiras mesmo.

não sendo bebida ou falta de sono a causa dos círculos negros em volta dos olhos, resolvi partir para uma solução mais efetiva na manhã seguinte, já que o corretivo não dá mais conta do recado. então vejo sobre a pia a linda bisnaguinha rosa-choque de "gel para pernas e pés cansados" da granado. meu raciocínio é: se faz milagre com pernas e pés, imagina o que não fará por esse rostinho que parece que levou dois socos! imagina mesmo. sem dar bola pro aviso que dizia "evite contato com os olhos" tasquei-lhe o gel na circunferência das olheiras, que imediatamente começou a arder, queimar, agonizar, fumegar. claro, o gel tem cânfora, menta e outras substâncias poderosas capazes de revigorar... as pernas e pés, não a área dos olhos.

post-it mental: não dar tanta importância a comentários alheios, masculinos ou não. se der, pelo menos dedicar uma importância igual ou maior ao meu próprio bom senso.

[no dia seguinte, uma companheira na luta contra as olheiras me indicou hipoglós nelas antes de dormir. eu, que não suporto cheiro de hipoglós, disse "no, thanks", e na volta do almoço a fofa me deixa de presente um outro creminho de bunda de neném na minha mesa, com um cheiro ótimo. usei ontem, não vi muito resultado, mas perseverarei.]

obrigada :)

comentários, fofos mais ainda, me deixam muito feliz. só não consigo responder nos próprios comentários, como já disse, acho esquisito. então prefiro fazer um post-agradecimento mesmo!

estranha

o me irrita:

homens com o cabelo tingido, em especial de acaju
pessoas com o cabelo escroto em geral
pessoas que mandam recibo no email, é tão antipático
quem chama waffle de "ueifou", não de uáfou como é a pronúncia correta (mesmo em inglês)

o que eu não faço (quase nunca):
é a coisa mais rara do mundo eu dar esmola ou me comover com performances na rua, sejam quais for. com uma exceção. toda vez que vejo alguém tocando violino, bem ou mal, meto a mão no bolso e tiro pelo menos uma moeda. acho que é porque meu pai tocava violino quando era jovem.

um t.o.c.:

só consigo dormir depois de jogar paciência (freecell) no celular. às vezes chego a jogar quase uma hora antes de cair nos braços de morfeu.

adoro:

passar cotonete no ouvido.

ex-libris (por falar em livros)

vivendo e aprendendo. ontem eu descobri o significado literal da expressão latina "ex-libris", que quer dizer mais ou menos "este livro pertence à biblioteca de..." eu já imaginava que era isso. tinha um namorado cujo avô era meio metido a besta e todos os livros dele tinham um selo ilustrado na contracapa que dizia "ex libris fulanodetal". pois agora me baixou a soberba e eu tô com vontade de mandar imprimir uns selinhos bem lindinhos e colar em nos meus livros "ex libris mariana cândida". dei pra achar finíssimo também. eu não aprendo que livro não se empresta e continuo largando os meus por aí. quem sabe assim eu perca menos livros ao longo da vida? no fundo acho não adianta muito. tenho até hoje comigo um livro do tal avô, apesar do seu "ex libris...".

[porque às vezes eu empresto e não pego de volta, mas também pego emprestado e não devolvo. shame on me.]

vida, modo de usar (de novo)

? que eu t? completamente absorvida relendo esse assombro de livro. chocada porque existiu algu?m capaz de escrever um livro, um quadro, um puzzle, uma obra dessas. e no ?nibus rezo e agrade?o a deus que essa pessoa existiu um dia. porque n?o ? um ser humano comum, ? uma algu?m com um dom sobrenatural, mais ou menos como os acr?batas do cirque du soleil. inconformada e sem entender como n?o deram muita bola pro relan?amento dele no brasil, nenhuma resenha, nada, nada. como assim gente, em que mundo voc?s vivem? sofrendo por ainda-j? estar na p?gina 48 e saber que daqui a mais umas 600 p?ginas o livro termina.

+wish lists aleatórios

eu queria ter: uma vitrolinha colorida dessas que todas as pessoas da minha geração tiveram quando eram crianças. foi vista por 200 reais por aí e eu estou ponderando se merece ou não o desembolso.
também adoraria ter uma geladeira colorida, mas essa custa 8 mil reais. OITOMIL. não é pro meu bico.

eu queria que desaparecesse do sistema solar: tudo o quanto está relacionado com essa novela das índias - atores, roupas, cenários, expressões. mor-ram! [e agora vem aí uma do manoel carlos e eu, que estava reabilitada do vício das novelas, estou na dúvida entre sucumbir ou não à tentação].

eu queria ser melhores-amigas: do claude troisgros porque ele me parece ser um cara tão gente boa que dá muita vontade de ser amiga dele. se a gente fosse amigo eu nem ia pedir pra ele cozinhar pra mim ou pra ganhar desconto no restaurante dele (só se ele quisesse), bastava ficar batendo papo com ele mesmo.
também não seria mau virar amiga da carla bruni (do marido dela, dispenso). vi um especial sobre ela e fiquei com vontade de ser sua bff*. ela é divertida, linda, interessante, acha que todas as pessoas deveriam fazer terapia desde a infância, canta bem, lê bastante, além do que seria uma ótima oportunidade de praticar meu francês-paraguaio.
[com claude, au contraire, eu faria questão de só falar em português, porque por nada nesse mundo ia perder suas pérolas e seu sotaque genial: "carrrramb'!"]

se eu um dia tivesse um cão (pouco provável) eu queria que: ele fosse de qualquer raça mas que tivesse uma mancha preta no olho.

eu queria: ter viajado no feriado, mas não deu.

*best friends forever

prenúncio de um verão

os bichos de luz são os primeiros a aparecer. são a trombeta anunciando o verão. o trânsito em copacabana fica impraticável a qualquer hora do dia. as noites não são mais possíveis sem ar condicionado. o chope desce rodopiando e a conta do bar sobe nas alturas. a praia aos fins de semana exige altas doses de tolerância, resignação e contorcionismo, mas é necessária porque com sol ninguém aguenta ficar em casa. em compensação, durante a semana, o despertador toca mais cedo e, por um milagre, eu fico de pé. é que um mergulho no melhor-lugar-do-mundo antes do trabalho tem o dom de energizar qualquer dia chato. a primavera ainda nem chegou mas já é verão em terras de são sebastião. é de assustar, não é pra qualquer um (e eu adoro).

confissões que eu não ousaria fazer na faculdade

ainda tenho um pouco de vergonha de admitir, mas a verdade é que eu não vim ao mundo pra ver filmes. não é que eu não goste de ir ao cinema ou assistir um filme em casa, mas também não é uma coisa que eu me esforce muito pra fazer. talvez eu não seja uma pessoa áudio-visual, nunca fui fã de televisão, às vezes simplesmente o som e a luminosidade de uma tevê ligada me irritam.

na faculdade, e mesmo depois, sempre tinha uma obrigação implícita de se ver e comentar todos os filmes em cartaz. e eu ficava sem graça de não ir ao cinema toda semana e me sentia frustrada de não dar conta nem dos filmes que eu gostaria de ter visto. e pensava "quando sair em dvd eu vejo esse filme" e nunca via.

sei que se produzem e se produziram coisas fantásticas por aí. não me arrependo de nenhum bom filme que vi, apesar de não lembrar de tantos assim. e lamento sinceramente não ter visto os filmes essenciais na formação de uma pessoa.

só que... já passei dos 30 e sei que existem coisas que a essa altura não vou fazer mais. ok, pode ser que em algum momento eu me descubra uma cinéfila tardia, fique sócia de uma boa locadora e passe um ano trancada em casa recuperando o tempo perdido. pode acontecer, por que não? mas não sou boba nem nada de ficar alimentando expectativas em relação a isso. tenho um bom tempo de estrada pela frente e, consequentemente, muita frustração pra amargar. tudo bem com isso. só não preciso que me frustrar com o que tem poucas chances de se realizar.

enquanto isso daqui a pouco começa mais um festival do rio e me dá preguiça da histeria coletiva que toma conta das pessoas. tenho vontade de dinamitar as hordas de pseudo-cults que invadem botafogo. e volto a me achar um e.t., quem sabe um pouco intolerante. pelo menos dessa vez, passo longe da programação sem culpa.

enigmas da humanidade

olha, no dia-a-dia eu tenho bastante contato com gente de diversas profissões: balconistas, caixas de supermercado, produtores, administradores, psicólogos, publicitários, recepcionistas, designers, secretárias, domésticas, médicos, analistas de sistema, astrólogos, garçons, jornalistas, porteiros, trocadores de ônibus, motoristas de táxi, e por aí vai. então me explica por que de todos os ofícios, os corretores são os que têm os dentes mais feios? será alguma maldição obscura pela qual eles são perseguidos? será que isso só eu vejo isso? por que raios eu fico prestando atenção nos dentes dos corretores?

da arte de estar adequado

nunca tinha me ocorrido associar o conceito de felicidade à palavra adequação. normalmente, quando a gente pensa em felicidade, vêm à cabeça imagens poéticas como "brilho na alma", "fogos de artifício", "borboletas no estômago", "pulos de alegria" e outras figuras de linguagem bonitinhas. mas estar feliz é justamente se sentir adequado na própria pele. é ser quem se quer, aqui e agora. é "cair bem", é pertencer. e o contrário equivale à tristeza.

era um domingo à noite. estávamos eu e ele embalando uma caixa enorme, que seria despachada na manhã seguinte pelo correio. então eu senti. a felicidade. não parei pra elaborar "estou me sentindo feliz". até porque quando a gente tá contente, nem pensar que está contente a gente quer, nem pensar a gente quer, a gente quer é viver. o que eu senti foi simplesmente que não desejava estar em nenhum outro lugar do mundo naquele momento que não na sala da minha casa, entre folhas de papel pardo e fita crepe. que me viessem com paris, bankok, praga ou itacaré. dispensaria tudo pra estar ali, com ele, sentada no chão prosaicamente embalando um caixote de papelão.

corta.

estou no meio de uma reunião. tento me concentrar na pauta, mas tá difícil. eu não queria estar ali. eu preferia estar em qualquer outro lugar. preferia estar numa sala de cirurgia, com a barriga aberta - coisa que vai me acontecer em breve, diga-se - do que estar ali. por que eu não podia estar sendo operada agora? não era nem papo de pedir pra estar em paris, bankok, praga ou itacaré. tudo o que eu queria era não fazer parte daquele momento. estaria melhor lavando uma pia cheia de louça engordurada. desentupindo um banheiro. ou no trânsito da avenida brasil. ali eu vi que estava profundamente infeliz.

e mais ou menos assim a vida passa, numa alternância entre momentos de adequação e inadequação com o roteiro divino. e como num palco, somos ora como o modelo perfeito para o traje da existência, ora autênticos bufões no teatro errado.

monday blues

um carro azul-bic para no sinal. suspiro. não sei por quê, mas aquele azul me dá uma tristeza profunda. passa uma menina andando de skate tomando mate no canudinho. ela usa óculos escuros vermelhos, apesar de não fazer sol. tão segura de si, flutua sobre o mundo com suas rodinhas. meu coração aperta ainda mais. queria ter a metade da sua segurança. a vida está suspensa e o dia será longo. quero passar logo a roleta, o motorista me dá um pito. sento no banquinho e obedeço ressentida. estou a ponto de chorar mas sei que não vou conseguir. hoje sou uma dama de negro que achou que fugiria da monotonia com sapatos, meias e unhas cor de sangue. é mais uma semana que se inicia. e não é bom sinal quando ela mal começou e eu não vejo a hora que acabe. nem sempre a vida é cor-de-rosa.

riso solitário

saí do prédio e deixei o porteiro gargalhando sozinho ouvindo um programa de rádio. sorri.
dá gosto ver gente rindo sozinha.
na rua, o sujeito anda com um sorriso na cara, pensamento longe. o que será que está passando pela sua cabeça? só pode que ser alguma coisa muito engraçada pra escapar da barreira da auto-censura e vir parar nos lábios.
rir junto também é muito bom, mas há sempre o risco de o intelocutor estar rindo por cortesia ou solidariedade com quem contou a piada. o riso solitário é a graça sincera.

facebook

? gozada essa coluna social rand?mica e variada. mas ? esquisito. acho que prefiro jornal, que tem curadoria.

[talvez eu seja old school e prefira mesmo os blogs, que voc? s? l? exatamente aquilo em que est? interessado, mesmo que seja a maior bobagem do mundo. os blogs devem acabar e eu vou ficar pra tr?s com meu excesso de caracteres.]

1001 utilidades

dia desses eu ganhei uma amostra gr?tis de len?os umedecidos vagisil. como o nome diz, j? deve dar pra imaginar pra que serve. eu sou do tempo em que higiene se fazia com o bom e velho sabonete. mas sei l?, n?, vai saber, maravilhas do mundo moderno. e guardei os tais lencinhos, pra uma eventual emerg?ncia que, sinceramente, eu esperava n?o ter. da? que tive.

num s?bado de ?cio, encasquetei que meu lindo notebook branco andava um pouco endardido. fui ver em f?runs de macman?acos como ? que fazia pra limpar macbook branco e uma das dicas era passar len?os umedecidos, daqueles de limpar bumbum de nen?m. bom, n?o tenho nenhum nen?m em casa mas... epa! tenho len?os umedecidos de limpar... deixa pra l?. e foi assim que meu mac ficou de novo branquinho e cheiroso com o patroc?nio de vagisil.

deus:

por favor,

não me deixe ser uma companheira como as que eu vejo por aí.

uma mãe como as que eu vejo por aí.

uma filha como as que eu vejo por aí.

uma irmã como as que eu vejo por aí.

uma chefe como as/os que eu vejo por aí.

não me deixe vestir umas roupas que eu vejo por aí.
muito menos me deixe agir com desleixo comigo mesma.

lembrai-me sempre dessas coisas que eu vejo por aí.
a auto-crítica de cada dia nos dai hoje, pra que eu não faça igual.

afasta de mim a auto-indulgência e a auto-referência.
me faça ver que o mundo não gira em torno dos meus probleminhas medíocres.

permita-me alguns deslizes, que são inevitáveis.

perdoai o meus pecados e assim como eu perdoarei a quem me tenha ofendido.

mas livrai-me de ser uma pessoa escrota.

obrigada,


amém.

insoc (!)

como todo mundo sabe, eu não saio mais porque estou velha. e todo mundo sabe também que eu sou um poço de contradições. daí que eu fui no show no information society e foi uma das coisas mais divertidas que eu podia ter feito.

primeiro é preciso situar information society: o information society, insoc para os íntimos, foi uma banda que fez sucesso de meados dos anos 80 até o início dos 90. ou seja, basicamente durante toda a minha adolescência. naquela época (eu acho) não existiam tantas variações pros ritmos da moda como existem hoje (trance, psy, drum'n'bass, sei-lá-mais-o-quê), então acho que o tipo de música que eles faziam era considerado dance ou pop e, mais precisamente, era o que embalava nossas festinhas. os sujeitos usavam uns cabelos espetados e se apresentavam de patins. mas o curioso mesmo é que eles eram o tipo de banda que só fez sucesso no brasil. sendo aqui provavelmente o único lugar da face da terra onde conseguiam ganhar algum trocado, eles fizeram shows do oiapoque ao chuí, inclusive em cidades que nunca tinham tido em sua história uma atração internacional. por isso, é bem possível que os membros da banda estivessem duros ou precisando de algum afago pro ego quando resolveram voltar ao brasil e fazer shows depois de tantos anos.

o fato é que o show foi uma boa surpresa. chegando no lugar eu farejei, positivamente, um ar de "festa estranha com gente esquisita". gente da minha idade ou mais velha que eu que deve ter deixado os filhos com os avós e saiu pra curtir a noite e relembrar os velhos tempos. pouca gente com "cara de zona sul", porque as pessoas da zona sul são cool demais pra admitir que gostaram um dia (e ainda gostam) de information society. e foi justamente um tipo de música diferente, leia-se diferente de sambinhas e afins, que me fez sair de casa porque, numa boa, já estou cansada das opções da noite carioca.

por um lado tenho um pouco de preconceito com gente que vive presa ao passado e respira nostalgia. dos tipos que só frequentam festas anos 80. acho que uma vez ou outra, tá bem, mas o sujeito só ser capaz de se divertir se entrar num túnel do tempo é meio demais. por outro lado, entrar no túnel do tempo às vezes pode ser bem legal. e eu entendi perfeitamente a catarse coletiva que aconteceu no show do information society. os caras tocaram todos os sucessos da época (que não eram poucos) e o povo foi ao delírio. no final, todo mundo queria bis, mas o vocalista disse humildemente "a gente não tem mais nenhuma música..." e o show terminou elegamentemente.

o ponto alto, claro, foi quando tocaram running. quem conhece, favor me dizer, em que outro contexto uma pessoa com mais de 30 anos, que não frequente o maracanã, tem a possibilidade de gritar a plenos pulmões "vai tomá no cu"* em coro com a multidão? não-tem-pre-ço!

*"now i don't want to play games with you (vai tomá no cu!)/but i don't know what to say to you (vai tomá no cu!)/the digits change so slowly now/i'm going it alone..."

manjericão & alecrim

dia desses eu fui na cadeg com juca e sua amiga muito simpática. programinha que, aliás, quero repetir. que delícia passar a manhã de sábado namorando flores, frutas e todo tipo de iguarias e depois parar para comer, tomar uma cerveja (que naquele dia não tomei por estar de dieta pela centésima nona vez), e ver o povo dançando danças portuguesas.

pois voltei pra casa carregando frutas mil, aspargos frescos e dois vasinhos: um de majericão e o outro de alecrim. minha primeira horta. nunca imaginei ter um empreendimento agrícola, apesar de a minha família vir "da roça". achei que as plantinhas não iam vingar. procurei no google sobre "como cultivar manjericão". folheei a coleção de casa cláudia pra ver se tinha alguma luz. rega muito? rega pouco? rega todo dia? então lembrei do meu pai.

lá pelos anos 80 entrou na moda um negócio chamado "silva mind control" (tá, o nome é bizarro) que consistia em o sujeito desenvolver os poderes do pensamento coisa e tal. e meu pai entrou de cabeça em um grupo. aí tinha uma experiência que era o seguinte: você pegava dois tomates, um deles você xingava, maltratava, falava coisas horríveis. é, pro tomate. o outro você tratava igual um bebê, chamava de querido, fazia carinho, etc. e o incrível é que o tomate relegado apodrecia rapidinho e o tomate mimado durava um tempão. era impressionante.

daí que eu comecei a falar com as minhas plantas. bom dia, lindinha, tudo bem? oi queridas, chegou a hora da rega, oi fofinhas, vamos tomar um banhinho? o manjericão já quase dobrou de tamanho e o alecrim tá lá firme e forte. o cônjuge acha esquisito isso de tratar com carinho uma coisa que você vai comer no dia seguinte, mas eu repliquei que ele faz o mesmo comigo. estou amando essa vida rural e tenho planos de fazer uma expansão pra outras culturas: tomilho, cebolinha e por aí vai. boa desculpa pra voltar na cadeg.

e resulta?

passei mal de rir com esse vídeo.



mas a partir da segunda vez que ví, que foi quando eu comecei a entender algumas coisas que eles falavam.

sério, cheguei à conclusão que não posso nunca ser assaltada por um português, sob o ristco de tomar um tiro no meio da cara. porque é um deles abrir a boca que me dá vontade de rir. que não me leve a mal, acho português falando fofo. é que o sotaque faz cosquinha.

e agora?

meu livro chegou. morrendo de vontade de começar a ler, mas não consigo ler dois livros ao mesmo tempo, ainda mais esse, que merece dedicação exclusiva. justo esse fim de semana eu comecei a ler um irvine welsh e engrenei. não estava conseguindo me concentrar em nada sério, começava vários livros e parava, coisa que me dá profunda agonia. aí eu apelei pro besteirol e deu certo. o problema é que eu apanho do inglês-escocês-de-rua e levo o dobro do tempo pra ler uma página. a capa de uma dessas istoé foi sobre ansiedade. era bom de ler a matéria.

4 coisas

1. uma coisa que eu queria muito, mas nunca terei: uma cozinha que nem essa.

(primeiro porque já tá difícil de ter uma cozinha, ponto. depois porque, mesmo que tivesse todas as condições financeiras, astrológicas e imobiliárias a meu favor, difícil seria convencer o cônjuge de que essa seria a cozinha dele)

2. uma coisa que eu queria muito e ganhei de aniversário: um set de canetinhas stabilo.

(não, eu não me canso de falar delas, que colorem meus cadernos, meus dias e minha mesa de trabalho)

3. uma coisa que eu queria muito e acabou de chegar pelo correio: vestidinho mexicano.

(além de mal poder esperar pra saracotear por aí com esse lindo modelito verão, agora estou realmente apta a fazer um ensaio fotográfico vestida de frida com ninguém menos que d.diego, dá licença?)

4. uma coisa que eu queria muito, já encomendei e está prestes a chegar: vida modo de usar, de georges perec.

(li esse livro - sensacional - há muitos anos, emprestado. faz uns meses me bateu um súbito desejo de ler de novo, fui procurar pra comprar e: esgotado! o preço nos sebos beirava uns 200 dinheiros e eu comecei minha busca insana por um exemplar. virou um fetiche. então, depois de muitos protestos e súplicas de fãs desesperados, a cia das letras resolveu relançar em versão pocket. no dia que soube, saí correndo pra comprar na primeira loja, porque não aguentaria esperar pela internet. ainda não tinham chegado ao estoque. o jeito foi encomendar na travessa online e aguardar ansiosamente.)

foi assim

era um vestibular concorridíssimo mas eu só marquei aquela opção. ou era aquela ou nenhuma. e no caminho da prova tocou no rádio "vamos fugir" que era, e talvez seja até hoje, junto com umas outras, a minha música preferida. e ali eu tive a visão que ia passar.

e hoje eu acordei com "gente" do caetano na cabeça. e tive a visão do hall de entrada da casa que eu não tenho. é uma montagem com várias fotos dos nossos amigos, a letra de "gente", talvez adesivada, talvez pintada. um espelho, porque gente espelho da vida, doce mistério. e então tomei todas as decisões que eu tinha que tomar. e tive a certeza que tudo daria certo.

e hoje osgemeos foram lá na firma e falaram. e osgemeos, fala sério, o que são osgemeos? os caras são OSCARAS. e são tudo, e abriram meus olhos, minha cabeça porque o mundo tá aí. e ainda por cima me deram mais uma idéia pro hall de entrada pra casa que eu (ainda) não tenho. vai ser com ex-votos. quem sabe. osgemeos. gente é pra brilhar. gente é pra ser feliz. gente, espelho da vida, doce mistério. vida, doce mistério.

[eu sou uma boneca amarela, gaveta aberta pro mundo]

a auto-indulgência

sabe, ainda sobre essa questão de não resolver o que precisa ser resolvido logo, fico achando que um dos piores defeitos do ser humano (fora vileza, desvio de caráter, essas coisas) é a auto-indulgência.

nessa de ver apartamentos você se depara com umas casas que fica pensando: "como é que a pessoa deixou chegar nesse ponto?". mas o fato é que as pessoas deixam chegar nesse ponto. porque vão empurrando com a barriga, vão deixando pra depois, vão gastando com outras coisas mais imediatas. e gastar, aliás, é a grande válvula de escape da auto-indulgência contemporânea. "eu mereço isso", "eu mereço aquilo". tá bom, eu mereço, tu mereces, nós merecemos, mas quem paga a conta?

comer segue uma lógica idêntica. hoje cheguei de baixo astral e pensei: eu mereço comer um monte de bobagens. e comi nuggets com ravióli congelado (porque eu adoro massa pronta congelada, don't ask). e depois passo a outra metade do ano fazendo dieta.

o dialeto de 02

e ainda por cima eles já foram embora de novo. já estou com saudades das pérolas que ela andava proferindo em seu dialeto maranhense. primeiro era vou fazer isso "pra ti" pra lá, "pra ti" pra cá. e "banhar"? "vamos banhar, dindoca?" e tem outras coisas engraçadas como "percurá"(procurar) e é meu "perferido" (preferido). ou nójento.

aí ela virou pra minha mãe e falou que o metrô era muito sabido porque sabia o caminho dele direitinho e nunca se perdia. e depois virou pra minha irmã e disse: "mamãe, eu gosto tanto da vovó que eu queria casar com ela!"

dá ou não dá vontade de miniaturizar uma criatura dessas e andar com ela feito um chaveirinho?

porque a vida é feita de compensações II

para o bem ou para o mal.

hoje de manhã me livrei de um peso que me incomodava há quase dois anos. um mosquitinho que zumbizava no meu quarto toda noite antes de dormir: finalmente concluí a monografia de uma pós longínqua e que constava da minha lista de pendências para serem resolvidas em 2009. que sensação boa se livrar de um problema, de uma coisinha que era simples mas que, talvez por isso mesmo, eu não tinha coragem nem forças pra resolver. a vontade foi de, literalmente, dar pulinhos de alegria.

e então à tarde, um novo peso, diferente, mais pesado e que por outro lado não depende de mim, foi se instalar direto no meu cangote. e aquela interrogação, que andava rondando a minha vizinhança agora parou na frente da janela e está piscando em neon vermelho pra mim.

sabe, no sábado à tarde eu estava no quarto piso do rio sul e me deparei com uma multidão de gente. dei mais uns passos e então elucidei que aquilo era a fila do povo fazendo suas apostas de última hora na mega sena acumulada. e pensei: que gente louca. se eu soubesse que o prêmio iria sair justamente daquela lotérica talvez tivesse mudado de idéia. talvez tivesse até entrado na fila. que genial isso, 38 pessoas do bolão da firma estão hoje rindo à toa. pior do que não ganhar na mega sena é trabalhar na firma dos 38 ganhadores e não ter entrado no bolão. como eu digo, compensações.

eis que agora me restam apenas algumas pendências daquela lista: ir ao dentista, ir ao médico, fechar uma conta no banco, mudar de previdência privada, fazer bainha em duas calças jeans, arrumar estantes, arrumar armários, arrumar gavetas, arrumar... a vida.

porque a vida é feita de compensações

estava eu no ponto de ônibus ruminando meu mau humor por conta de um compromisso-mala que teria mais tarde, lamentando a gengiva ferida pelo meu recém-colocado aparelho fixo, e espraguejando as pessoas e a vida em geral quando toca o celular. é b_ que está parada no ponto e me diz "entra logo no carro que eu te deixo lá". uma caroninha inesperada com uma companhia aprazível e um trânsito bom fizeram meu humor melhorar sensivelmente.

meu aparelho novo está sim incomodando, mas é branquinho e discreto, além do que eu estou me sentindo linda e 15 anos mais nova.

e o resto é o resto. o bom é que amanhã minha quase-afilhadinha vai nascer, tadinha, por dois dias não vem canceriana. tadinha nada, tadinhos somos nós, do signo de caranguejo.

e por falar em cancerianos, olha o que eu acabei de comprar no mercado, na caixinha pequetica:

igualzinha à que meu pai comprava pra eu levar de lanche. como diz rogerito, food relief. mas nesse caso é comfort food relief. ou nostalgic food relief.

a lógica do endividado

como a gente não sabe o dia de amanhã, gastemos hoje. já que, além dos vestidos mexicanos e blogs de decoração, também ando obcecada com estampas. tô a louca das estampas, eu. se forem da totem, melhor ainda. como se não tivesse bom de vestidos, já. eu preciso de bolsa, não acho nenhuma que me agrade, toma-lhe vestido. mulher tem dessas insanidades. ainda bem que as minhas são só de vez em quando.

como será o amanhã?

pois eu continuo com medo, mas confiante que tudo, tudo, tudo vai dar pé. porque na minha vida eu quase não planejo nada, mas o que eu desejo acaba se realizando de um jeito ou de outro. desejo bem mais do que planejo, sonho mais do que faço. e num passe de mágica as coisas acontecem. acabo ficando até um pouco preguiçosa. é e não é legal. tenho que abrir os ouvidos pro que assopra a minha intuição. a bichinha é poderosa. e eu às vezes fico surda.

o medinho vem de longe. uma vez, quando tinha 8 anos, estava em uma viagem de família em salvador. aí nos indicaram um padre astrólogo no pelourinho. da série coisas que só tem na bahia. aí fomos no convento e o padre fez o mapa da família toda. frei eliseu o nome dele, me lembro até hoje. se não me engano o meu mapa foi o último e provavelmente àquela altura ninguém estava mais com paciência de ouvir o mapa astral de uma criança de 8 anos. não guardei quase nada do que foi dito, tampouco gravamos a conversa, mas uma coisa o frei astrólogo disse que me marcou e me persegue até hoje. a "profecia" versava mais ou menos o seguinte: eu poderia perder tudo na vida, mas sempre sobraria um tijolinho de onde eu tiraria forças pra reconstruir meus castelos. como a gente só ouve o que quer*, eu simplesmente ignorei a parte boa da história e passei a conviver com um fantasma: "eu vou perder tudo".

já perdi muita coisa. muita coisa mesmo. mas acho que no saldo geral ganhei tanto mais do que perdi que fico achando que não foi só um tijolinho que restou. foi também um pouco de cimento, massa corrida e uns pedreiros de quebra. tenho nome de heroína épica, eu acho. mariana cândida é quase uma versão luso-brasileira de scarlet o'hara.

[*sobre esse tema da audição seletiva, tem uma história ótima do meu amigo que levou a mãe à médica depois de uma internação. a médica disse, entre outras coisas, que ela poderia e deveria levar uma vida normal, que a saúde estava excelente, que ela devia aproveitar seu tempo, caminhar, dançar, etc. ao tentar explicar o que ela havia tido, a médica falou que ela tinha um aneurisma sem gravidade e reforçou que a saúde estava boa, vida normal dali em diante. ao saírem do consultório, meu amigo esperançoso de que a mãe iria "mudar de vida" perguntou: "mãe, a senhora ouviu bem o que a médica falou?" e ela respondeu: "ouvi sim, meu filho. eu tenho um aneurisma".]

o dress code dos universitários

[por falar em meia-calça]

existe um momento na vida do universitário em que ele deixa de ir pra faculdade de chinelo e passa a dar as caras embecado. veste com orgulho suas roupas de jovem executivo, mesmo que tenha apenas conseguido seu primeiro estágio não-remunerado. isso o distingue dos colegas, que ainda comparecem às aulas com suas bermudas surradas, e seu dress code quer dizer basicamente o seguinte: "eu entrei para o mercado de trabalho e uma carreira promissora como xxx me aguarda, enquanto vocês, seus vagabundos de merda, vão ficar em casa vendo sessão da tarde". (mal sabem eles o quanto sentirão saudades das tardes em frente à tv pelos próximos 30 anos!...)

nas carreiras "uniformizadas" a distinção entre os neo-trabalhadores e a massa de derrotados fica mais patente ainda: que dizer dos estudantes de direito que começam a dar pinta na faculdade trajando orgulhosamente o terno do pai? e dos estudantes de medicina, fisioterapia, odonto e afins quando vestem seus primeiros jalecos brancos?

no meu primeiro estágio, não tive a oportunidade de mostrar para o mundo que ali se iniciava um futuro brilhante. eu trabalhava na casa do chefe, que dava expediente de samba-canção e camiseta furada. era uma esculhambação tremenda e eu ia trabalhar de short.

em contrapartida, o meu segundo estágio foi em uma repartição "séria" e aí sim eu tive a oportunidade de ir montada pro trabalho. como a ocupação que eu escolhi em geral não comporta ambientes muito formais, mesmo os que já estagiavam não precisavam trocar o chinelo pelo terno, podiam usar no máximo um tênis ou um mocassim porque nessa profissão é legal parecer descolado. só que naquela repartição a indumentária dos funcionários ficava em algum lugar entre o esporte fino e o passeio completo e eu achava o máximo aparecer na faculdade de meia-calça e salto alto com ares de business woman. com minha soberba eu queria dizer basicamente o seguinte: "não apenas eu entrei pro mercado de trabalho como ando muito mais arrumada do que todos vocês, o que significa que serei uma executiva de sucesso e atingirei o ponto mais alto da minha carreira".

muitos anos depois... [que nem novela]

hoje em dia bato ponto numa dessas firmas onde é legal parecer descolado. se estou com vontade de trabalhar de salto alto vou, se quiser ir de tênis, tudo bem também. na verdade não me importo muito. há alguns anos me afastei do ideal de ser uma executiva de sucesso. meu trabalho paga minhas férias, meu chiclete e minhas figurinhas, o que, por si só já é genial.

não tenho exatamente saudades de ficar na frente da tv à tarde. estranhamente, sinto uma imensa nostalgia daquele meu primeiro estágio, quando a gente comia um pacote de chocolícia branco por dia e não engordava, quando uma das minhas atividades no trabalho era ficar pensando em alguma coisa pra irritar o filho do chefe, quando almoçávamos um cachorro-quente da van por 1,50 que era pra sobrar algum pra cerveja no bar da faculdade. e ainda dava pra pagar as férias.

a moda outono/inverno 2009

n'outro dia vi uma mulher de gorro e luvas em plena general osório. os batons opacos e com cores fortes voltaram. acabou a hegemonia do gloss. prepare-se pra ter visões bizarras. a meia-calça também voltou com tudo. socorro! eu uso meia-calça, mas só se for fio 40 pra cima. se me vir de meia-calça transparente na rua, por favor, me interne.