reflexões futebolísticas I - o paradoxo do "senta"
o jogo começa e está todo mundo em pé. dali a pouco começam a gritar "sentaaaaa!" e o povo vai sentando de cima pra baixo. o problema é que se quem está na sua frente resolve não sentar você fica num dilema: ou fica em pé também e caga pra quem está atrás, ou senta e não enxerga nada. no fim das contas funciona mais ou menos assim: se o cara da primeira fileira não estiver a fim de sentar, geral vai ver o jogo em pé.
drops futebolísticos II
25 de novembro - último jogo do ano, despedida do mengão no maraca em grande estilo
- estádio lindo, como sempre. torcida idem. cobiço uma camisa 12.
- estréia da peruquinha vermelha na torcida. não basta torcer, tem que ter estilo.
- por falar em estilo, vamos ao momento fashion: ney franco péssimo com um modelito inexplicável de calça jeans da uruguaiana, blusinha meio-pólo-meio-esportiva e uma botinha zebu (!) pra arrematar. aff! são joel, cujos milagres já foram levados ao conhecimento do papa bento XVI, mais uma vez estava impecável em seu jogging-pretinho-básico.
- a suderj inventou agora de colocar uns alto-falantes berrando o hino do flamengo. o gênio que inventou isso deve achar que abafou. eu odiei. numa boa, coloquem esses alto-falantes tocando hino nos jogos do vasquinho, do foguinho, do fluzinho... nos jogos do mengão eles, além de desnecessários, atrapalham o que há de mais bonito que é o canto da nação rubro-negra.
drops futebolísticos
[enquanto eu e b'__ não publicamos nosso blog exclusivo sobre o assunto]
- que lindo o maracanã lotado, público recorde no campeonato. dia 25 tamo aeeee!
- a torcida é tão ou mais divertida, emocionante, bonita, quanto o jogo em si. e vamos combinar? que nem a nação rubro-negra não tem, pode procurar. e divertido mesmo é ver malando-machão chorar! onde mais?
- por essas e outras, acho que esse ano, contando com abertura do pan e jogo do brasil, fui mais vezes ao maraca do que na minha vida inteira. e ainda tem o show do the police! dessa vez fui de cadeira perpétua, cortesia de uma amiga de trabalho. o lugar é perfeito, pertinho do campo, embaixo da imprensa (assim, não corremos nem o risco de tomar objetos não-identificados na cabeça). desejei muito ser a feliz possuidora de cadeiras perpétuas no maracanã. já pensou, que onda na copa de 2124?!
- mas na maioria das vezes acabei indo de camarote e cheguei a uma conclusão: o camarote do maracanã é que nem uma foda de camisinha - tudo muito limpinho, muito seguro, mas não dá aqueeela emoção. de qualquer jeito, é melhor que nada. (e não faz mal nenhum tomar um choppinho gelado e ir ao banheiro sem se perder - sim, eu me perdi indo ao banheiro na arquibancada - vendo o mengão jogar).
- essa fase tá me deixando meio baixaria, além de rouca. cheguei do jogo cantando e o cônjuge me disse que ninguém no prédio tinha gritado quando o flamengo fez o gol, ao que eu respondi "ah é? só tem pó de arroz nesse prédio! se eles não gritam, grito eu!" e me pendurei no parapeito da área de serviço e gritei mengoooooooooooo!!! rapidamente fechei a janela, antes que reclamassem com o porteiro que a louca do XX01 estava perturbando a ordem do prédio. preciso manter minha imagem de pessoa séria.
- [momento fashion] perguntinha que não quer calar: por que todos os técnicos têm uma barriguinha? até aí, ok, muita churrascaria, pouca corrida. mas aquele vanderley é muito cafona, com aquela roupa dele social, aquela calça de seda, apertada na bunda, péssimo! eu acho assim ó: ou o treinador é europeu-ultra-elegante e, neste caso, está autorizado a vestir um terno italiano ou então, mortais, vistam um jogging que está superadequado.
equação onírica
12 horas de trabalho + flamengo 2x1 + chope x 4 + 7 horas de sono
= sonho com uma das minhas chefes me dizendo que o romário, que era um dos diretores da coca-cola, confidenciou pra ela que eu era uma das favoritas dele e que por isso tinha colocado meu nome no disputadíssimo camarote da coca-cola para o próximo jogo do flamengo.
então tá. como não estou mais na análise, não sei bem interpretar esse sonho sob a ótica freudiana. mas, que tipo de insight eu posso depreender disso tudo? que eu ando trabalhando demais? que eu ando bebendo pouco? que os diretores na coca-cola são vascaínos? e o mais intrigante, o que cacete significa ser a favorita do romário?!
= sonho com uma das minhas chefes me dizendo que o romário, que era um dos diretores da coca-cola, confidenciou pra ela que eu era uma das favoritas dele e que por isso tinha colocado meu nome no disputadíssimo camarote da coca-cola para o próximo jogo do flamengo.
então tá. como não estou mais na análise, não sei bem interpretar esse sonho sob a ótica freudiana. mas, que tipo de insight eu posso depreender disso tudo? que eu ando trabalhando demais? que eu ando bebendo pouco? que os diretores na coca-cola são vascaínos? e o mais intrigante, o que cacete significa ser a favorita do romário?!
se não funcionar
com o hortifruti, posso ceder os direitos das minhas idéias para uma comissão de feirantes. assim, faço uma boa ação e ainda por cima não desperdiço o sensacional "o senhor dos pastéis" - inadequado para o hortifruti que não comercializa o acepipe.
quando eu crescer, quero ser publicitária
eu confesso: adoro as campanhas do hortifruti, desde a "cascas" ao atual "clássicos do hortifruti" (pra quem não tem idéia do que eu estou falando - evidentemente não mora no rio - é só fazer uma busca no google para saber do que se trata). já se falou muito sobre isso por aí, as campanhas que fazem trocadilhos com as frutas e legumes são do tipo ame ou odeie. eu sou do time dos que amam.
só que essa semana eu passei do limite. estava entediada no ônibus de volta pra casa quando fui impactada pela milésima vez com o genial outdoor do "limão impossível 3 - um vírus letal, só a vitamina c poderá detê-lo", da série "clássicos do hortifruti". o "limão impossível" sucedeu o blockbuster "a incrível rúcula" e o clássico "e o coentro levou". então coloquei minha mente diabólica para pensar nos próximos lançamentos para o hortifruti. e desde então não consigo mais parar.
é com um misto de enorme orgulho e constrangimento, que eu apresento a minha lista para a próxima temporada:
- pimentão valente
- a hortaliça rebelde
- alfacinhos por natureza
- folhosos e leguminosos
- picnic
- x-manga (adorei!)
- love chicória (acho que esse não ficou muito fácil de entender, se eu fosse cliente não aprovaria)
- top grão (milho, ervilha e vagem)
- o advogado do quiabo
- o poderoso melão
- beleza tropicana (achei fraco)
- tropa de aliche (ok, aliche não é um hortifruti mas o trocadilho é irresistível)
- dona couve-flor e seus dois palmitos
- king coco
- a berinjela da tarde
- identidade brócolis (não gostei muito)
- laranjada mecânica
- tomatrix (meu favorito)
não é genial? acho que vou mandar minha pasta pro dono do hortifruti, quem sabe eu não entro para a tão sonhada carreira publicitária?
só que essa semana eu passei do limite. estava entediada no ônibus de volta pra casa quando fui impactada pela milésima vez com o genial outdoor do "limão impossível 3 - um vírus letal, só a vitamina c poderá detê-lo", da série "clássicos do hortifruti". o "limão impossível" sucedeu o blockbuster "a incrível rúcula" e o clássico "e o coentro levou". então coloquei minha mente diabólica para pensar nos próximos lançamentos para o hortifruti. e desde então não consigo mais parar.
é com um misto de enorme orgulho e constrangimento, que eu apresento a minha lista para a próxima temporada:
- pimentão valente
- a hortaliça rebelde
- alfacinhos por natureza
- folhosos e leguminosos
- picnic
- x-manga (adorei!)
- love chicória (acho que esse não ficou muito fácil de entender, se eu fosse cliente não aprovaria)
- top grão (milho, ervilha e vagem)
- o advogado do quiabo
- o poderoso melão
- beleza tropicana (achei fraco)
- tropa de aliche (ok, aliche não é um hortifruti mas o trocadilho é irresistível)
- dona couve-flor e seus dois palmitos
- king coco
- a berinjela da tarde
- identidade brócolis (não gostei muito)
- laranjada mecânica
- tomatrix (meu favorito)
não é genial? acho que vou mandar minha pasta pro dono do hortifruti, quem sabe eu não entro para a tão sonhada carreira publicitária?
visão de deus
dizem que deus é um ser iluminado. eu imagino que, além de iluminado, deus também é moreno.
visão do inferno
é contra os meus princípios acreditar que o inferno seja um lugar quente. na minha idéia, o inferno é um buraco frio e úmido e o diabo, uma criatura pálida esverdeada, com mofinhos na pele. o inferno fede a calça jeans que não secou direito.
o paradoxo da esquina
na nossa língua portuguesa, tão rica em figuras de linguagem, cunhou-se a expressão "esquina do pecado". ora, não existe local mais impróprio para pecar! não por questões morais, mas tão somente por um fator estratégico. em uma esquina, aquele ou aquela que está fazendo o que não deve fica muito mais vulnerável, já que as chances de ser descoberto em atividade detratória se multiplicam por dois, quiçá por quatro, no caso da esquina em questão estar localizada em um cruzamento.
mas aí eu pergunto: existe lugar melhor no mundo para se cometer o pecado do que em uma esquina?
mas aí eu pergunto: existe lugar melhor no mundo para se cometer o pecado do que em uma esquina?
esquinas
os personagens são outros, as esquinas em bairros diferentes, mas a cena é a mesma. estou passando, de carro ou de ônibus, na velocidade de quem não está a pé. então eu vejo: ele, em pé, alheio, quem sabe apressado, quem sabe atrasado, quem sabe em que coisas pensa.
a cena toda dura menos que três segundos, mas fica tão impressa no meu pensamento que toda vez que eu passo naquela esquina fico esperando que ela se repita, exatamente como na primeira vez.
a cena toda dura menos que três segundos, mas fica tão impressa no meu pensamento que toda vez que eu passo naquela esquina fico esperando que ela se repita, exatamente como na primeira vez.
sobre o tempo 1
venho pensando que quando a gente diz que está sem tempo, na verdade está sem espaço. o que nos falta não é um espaço físico propriamente dito, mas um território virtual para se encaixar determinada atividade. você ocupa sua cabeça, seu tempo com umas coisas, sobra pouco espaço pra outras. o tempo está ali.
depois falo mais sobre isso, agora infelizmente estou sem espaço para discorrer sobre minhas teorias acerca do tempo.
depois falo mais sobre isso, agora infelizmente estou sem espaço para discorrer sobre minhas teorias acerca do tempo.
o desfecho da novela do ponto frio
depois de ligar mil vezes para o sac, mandar email, escrever para o globo, ir na loja, reclamar de novo, finalmente vieram montar o armário hoje, com hora marcada. conclusão: falar ou mandar email para o sac não adianta nada, o negócio é armar barraco na loja mesmo.
aliás, esse negócio de defesa do consumidor renderia um blog só pra falar disso. a prestação de serviço aqui é muito ruim! no outro dia fui revelar umas fotos na kodak do botafogo-escada-shopping. a mulher revelou uma das fotos errada e ainda cortou a outra. mas isso não teria me aborrecido tanto se a mulher não fosse tão mal educada. odeio ser atendida por alguém de má vontade! se não tem vocação pra trabalhar com público, vá ser governanta do bin laden num buraco do afeganistão, pô! eu sou simpática, dou bom dia, boa tarde, boa noite, até sorrio. ou seja, não tem motivo nenhum pra não me tratar com um mínimo de decência...
outra coisa irritante é taxista ouvindo rádio evangélica. na dúvida, taxista não devia ouvir é nada. mas rádio evangélica é o fim da picada, e geralmente o sujeito nem pergunta se você quer que desligue. eu, como sou boazinha não falo nada e tento abstrair.
o que não dá mesmo pra abstrair é a nova petulância do povo do telemarketing. isso tem sido notado não só por mim, mas por várias outras pessoas. agora eles respondem atravessado, fazem gracinha, são sarcásticos. e continuam absolutamente inflexíveis e insistentes. fazer com que um deles resolva o seu problema é pior que tirar leite de pedra. antes do ponto frio, meu último estresse foi para cancelar a minha linha de telefone fixo (não preciso nem dizer o nome da empresa). desse episódio, também tirei alguns aprendizados que um dia podem ser úteis para alguém:
- ao pedir para cancelar a sua linha, de cara fale que se você não conseguir completar seu cancelamento naquela ligação vai acionar a anatel. as ligações de cancelamento costumam cair misteriosamente no meio. é tão irritante começar tudo do zero que muitas vezes você desiste no meio.
- diga que você está cancelando a linha porque vai se mudar com a família inteira para o exterior, assim eles ficam desarmados de qualquer argumento para que você mantenha sua linha.
- nunca, jamais diga que está insatisfeito ou que quer mudar de operadora caso não esteja disposto a ouvir as ofertas sensacionais que eles têm para oferecer.
- caso você ouça as ofertas sensacionais, não aceite. isso aumenta a estatística de sucesso dessa tática e faz com que eles repitam a prática com mais e mais pessoas. se quer conseguir alguma coisa, vá direto ao ponto.
- paciência, tolerância, mantenha quaisquer armas de fogo à distância. contenha seus impulsos de tacar longe o telefone, o prejuízo vai ser só seu.
***
enfim, tudo seria mais simples - para os dois lados - se os serviços não fossem tão ruins. mas os gênios do marketing foram beber no bar da faculdade no dia da aula de atendimento ao consumidor. e olha que eu sou boazinha!...
aliás, esse negócio de defesa do consumidor renderia um blog só pra falar disso. a prestação de serviço aqui é muito ruim! no outro dia fui revelar umas fotos na kodak do botafogo-escada-shopping. a mulher revelou uma das fotos errada e ainda cortou a outra. mas isso não teria me aborrecido tanto se a mulher não fosse tão mal educada. odeio ser atendida por alguém de má vontade! se não tem vocação pra trabalhar com público, vá ser governanta do bin laden num buraco do afeganistão, pô! eu sou simpática, dou bom dia, boa tarde, boa noite, até sorrio. ou seja, não tem motivo nenhum pra não me tratar com um mínimo de decência...
outra coisa irritante é taxista ouvindo rádio evangélica. na dúvida, taxista não devia ouvir é nada. mas rádio evangélica é o fim da picada, e geralmente o sujeito nem pergunta se você quer que desligue. eu, como sou boazinha não falo nada e tento abstrair.
o que não dá mesmo pra abstrair é a nova petulância do povo do telemarketing. isso tem sido notado não só por mim, mas por várias outras pessoas. agora eles respondem atravessado, fazem gracinha, são sarcásticos. e continuam absolutamente inflexíveis e insistentes. fazer com que um deles resolva o seu problema é pior que tirar leite de pedra. antes do ponto frio, meu último estresse foi para cancelar a minha linha de telefone fixo (não preciso nem dizer o nome da empresa). desse episódio, também tirei alguns aprendizados que um dia podem ser úteis para alguém:
- ao pedir para cancelar a sua linha, de cara fale que se você não conseguir completar seu cancelamento naquela ligação vai acionar a anatel. as ligações de cancelamento costumam cair misteriosamente no meio. é tão irritante começar tudo do zero que muitas vezes você desiste no meio.
- diga que você está cancelando a linha porque vai se mudar com a família inteira para o exterior, assim eles ficam desarmados de qualquer argumento para que você mantenha sua linha.
- nunca, jamais diga que está insatisfeito ou que quer mudar de operadora caso não esteja disposto a ouvir as ofertas sensacionais que eles têm para oferecer.
- caso você ouça as ofertas sensacionais, não aceite. isso aumenta a estatística de sucesso dessa tática e faz com que eles repitam a prática com mais e mais pessoas. se quer conseguir alguma coisa, vá direto ao ponto.
- paciência, tolerância, mantenha quaisquer armas de fogo à distância. contenha seus impulsos de tacar longe o telefone, o prejuízo vai ser só seu.
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enfim, tudo seria mais simples - para os dois lados - se os serviços não fossem tão ruins. mas os gênios do marketing foram beber no bar da faculdade no dia da aula de atendimento ao consumidor. e olha que eu sou boazinha!...
primavera
hoje seria dia de festa no jardim. mas não foi. olhando o vai-e-vem de gente num domingo de sol, pensei em como a vida é frágil, física e metafisicamente falando. como um grupo relativamente homogêneo, as pessoas parecem felizes. mas em cada universo particular existe um drama, de maior ou menor proporção. a vida pode ser leve, e às vezes muito, muito pesada. como conseguimos carregar esse peso, isso eu não sei. talvez tenha uma pista. desconfio que aqueles que estão por perto vão ajudando a equilibrar o nosso peso, enquanto nós também ajudamos a equilibrar o peso alheio, como em um bem ensaiado número de circo.
hoje uma florzinha murchou. o jardim todo chorou. mas é primavera, e a vida reflorescerá.
hoje uma florzinha murchou. o jardim todo chorou. mas é primavera, e a vida reflorescerá.
it’s friday i’m in love
with antony bourdain, um apresentador cinquentão charmoséeeeeeeeeeerrimo do discovery home & health. no programa, sua função é viajar pelo mundo, descobrindo pessoas e lugares interessantes, e comendo iguarias ora boas e classudas, ora bizarras e nojentas. nada mau.
ok, i´m in love também com ele, que me acordou às seis e meia da madrugada pra ir caminhar na praia. a caminhada foi interrompida com um princípio de ciclone extra-tropical que causou dor de ouvido no ser amado. mas tudo bem, porque compramos um pão quentinho e fomos pra casa tomar café juntos.
ok, i´m in love também com ele, que me acordou às seis e meia da madrugada pra ir caminhar na praia. a caminhada foi interrompida com um princípio de ciclone extra-tropical que causou dor de ouvido no ser amado. mas tudo bem, porque compramos um pão quentinho e fomos pra casa tomar café juntos.
hora do almoço
ouvir seu nome na boca de um, que não é, assim, um qualquer um. almoçar saudável com amigo num lugar incrível. comprar sapatinho xadrez. perspectivas, é sempre bom tê-las.
[o lugar é uma chácara entocada numa vilinha simpática em botafogo. serve comida vegana, você almoça num quintal delicioso. no final, ninguém vem cobrar, você mesmo paga e pega o seu troco. atitude rara e louvável.]
[o lugar é uma chácara entocada numa vilinha simpática em botafogo. serve comida vegana, você almoça num quintal delicioso. no final, ninguém vem cobrar, você mesmo paga e pega o seu troco. atitude rara e louvável.]
...mas algumas coisas ainda funcionam
por outro lado, comprei um rack numa loja chamada karam design que merece meu comentário positivo: a entrega ocorreu antes do prazo estipulado e a montagem foi feita no primeiro horário (mesmo - antes das 9hs!) do sábado.
infeliz dia do cliente no ponto frio
[enviado para o defesa do consumidor do jornal o globo, em 17/09]
No dia 25/08 comprei um armário de cozinha no Ponto Frio de Copacabana. O vendedor me disse que para entrega não era possível agendar horário, mas que para a montagem do mesmo sim. Depois que o armário foi entregue, liguei para o SAC para agendar a montagem. O atendente me informou que não era possível marcar o horário, mas eu argumentei se eles não podiam deixar minha montagem para o primeiro horário e ele disse que sim. Ainda enfatizei que era importante ser no primeiro horário e ele disse que tinha feito a ressalva. Marquei então a montagem para um sábado, meu único dia disponível, o único dia que tenho para resolver minhas coisas pessoais, já que trabalho a semana inteira. No sábado dia 15/09, por ironia dia do cliente, até o meio dia nenhum montador havia dado sinal de vida. Telefonei para o SAC para ter alguma posição e a informação que me deram era que a montagem poderia acontecer até as 18hs e que não havia como marcar horário. Questionei a contradição, já que o vendedor e o atendente que fez o agendamento disseram outra coisa e deixei registrada uma reclamação. A perspectiva de ficar em casa aguardando a montagem do armário até as 18hs – quando tinha me programado para ficar no máximo a manhã - já tinha me aborrecido bastante, mas o pior foi quando percebi que não apareceria ninguém, nem até as 18hs nem depois disso. Ou seja, perdi um sábado inteiro esperando um funcionário do Ponto Frio que não apareceu. Se soubesse de antemão que a montagem não poderia ser agendada, jamais teria feito a compra no Ponto Frio. Meu tempo é precioso demais para que eu tenha que ficar à disposição de montadores que, ainda por cima, não aparecem. Após as 18hs retornei a ligação para o SAC solicitando uma solução e a única proposta deles era fazer um novo agendamento, mais uma vez sem hora marcada. O descaso e desatenção foram enormes, ainda mais no dia do cliente. Já enviei um email pelo site, mas até o momento não obtive resposta. Tudo que espero do Ponto Frio é que efetue a montagem o mais rápido possível, AGENDANDO um horário em que eu possa estar em casa e não tenha que dispor de um dia inteiro (não existe essa possibilidade) na espera. É o mínimo que se pode esperar por parte de alguém que fez o papel de idiota durante um dia todo aguardando um serviço que não foi prestado. É preciso também que o Ponto Frio reveja sua política de entrega e montagem e que a impossibilidade de agendar a montagem fique clara antes do momento da compra porque não são todas as pessoas que podem se dar ao luxo ficar em casa aguardando indefinidamente.
No dia 25/08 comprei um armário de cozinha no Ponto Frio de Copacabana. O vendedor me disse que para entrega não era possível agendar horário, mas que para a montagem do mesmo sim. Depois que o armário foi entregue, liguei para o SAC para agendar a montagem. O atendente me informou que não era possível marcar o horário, mas eu argumentei se eles não podiam deixar minha montagem para o primeiro horário e ele disse que sim. Ainda enfatizei que era importante ser no primeiro horário e ele disse que tinha feito a ressalva. Marquei então a montagem para um sábado, meu único dia disponível, o único dia que tenho para resolver minhas coisas pessoais, já que trabalho a semana inteira. No sábado dia 15/09, por ironia dia do cliente, até o meio dia nenhum montador havia dado sinal de vida. Telefonei para o SAC para ter alguma posição e a informação que me deram era que a montagem poderia acontecer até as 18hs e que não havia como marcar horário. Questionei a contradição, já que o vendedor e o atendente que fez o agendamento disseram outra coisa e deixei registrada uma reclamação. A perspectiva de ficar em casa aguardando a montagem do armário até as 18hs – quando tinha me programado para ficar no máximo a manhã - já tinha me aborrecido bastante, mas o pior foi quando percebi que não apareceria ninguém, nem até as 18hs nem depois disso. Ou seja, perdi um sábado inteiro esperando um funcionário do Ponto Frio que não apareceu. Se soubesse de antemão que a montagem não poderia ser agendada, jamais teria feito a compra no Ponto Frio. Meu tempo é precioso demais para que eu tenha que ficar à disposição de montadores que, ainda por cima, não aparecem. Após as 18hs retornei a ligação para o SAC solicitando uma solução e a única proposta deles era fazer um novo agendamento, mais uma vez sem hora marcada. O descaso e desatenção foram enormes, ainda mais no dia do cliente. Já enviei um email pelo site, mas até o momento não obtive resposta. Tudo que espero do Ponto Frio é que efetue a montagem o mais rápido possível, AGENDANDO um horário em que eu possa estar em casa e não tenha que dispor de um dia inteiro (não existe essa possibilidade) na espera. É o mínimo que se pode esperar por parte de alguém que fez o papel de idiota durante um dia todo aguardando um serviço que não foi prestado. É preciso também que o Ponto Frio reveja sua política de entrega e montagem e que a impossibilidade de agendar a montagem fique clara antes do momento da compra porque não são todas as pessoas que podem se dar ao luxo ficar em casa aguardando indefinidamente.
viagem ao redor do próprio umbigo
quanto mais eu ando por aí, mais chego à conclusão de que o arpoador é o melhor lugar do mundo.
Semi-ficção – Convidado VIP
O Chamado
Dudu já tinha tomado seu Nescau noturno (cultivava esse hábito desde criança) e estava na frente da televisão naquele estado letárgico de quem espera o sono chegar, quando toca o telefone: “Dudu, tá acordado, véio?” Era a Catita, amiga de outros carnavais.
“Fala, Catita, tô sim, que manda?”
“Dudu, escuta, eu tô em São Paulo, fiquei presa numa reunião e não consegui voltar. Mas, se liga, tá rolando uma festa im-per-dí-vel no Balacobaco e eu lembrei de você, topa?”
Descoladíssima, a Catita sempre vinha com as boas de onde menos se esperava. Se ela dizia que a festa era imperdível, então devia ser mesmo. Esqueceu do pijama, do Nescau, do despertador que tocaria às 7hs e disse: “Topo”.
“Legal! Anota aí, o esquema é o seguinte, o seu nome vai estar na porta, mas você tem que dizer que é o Joca Lordão. Ele não vai com certeza, aí você entra com o nome dele.”
“Joca Lordão?”
“É, isso.”
“Beleza, Catita, valeu mesmo a lembrança! Depois te conto como foi.”
“Que é isso, véio, tranqüilo. Aproveita!”
Tomou banho e se arrumou em tempo recorde. Preferiu um visual despojado, mais ao estilo do Balacobaco. Tirou o carro da garagem e partiu rumo à noite inesperada.
Entrada
Chegou no local da festa e de longe viu que a amiga não tinha se enganado. Na pressa do telefonema até se esqueceu de perguntar do que ou de quem era a festa, mas pelo histórico da Catita desconfiava que fosse de alguém ligado ao meio artístico.
Deixou o carro com o manobrista e foi até a hostess, que estava cercada de gente. Seguindo as instruções da amiga, disse:
“Boa noite, Joca Lordão.”
Convidado VIP
Conferido o nome na lista, a hostess colocava uma pulserinha VIP no seu pulso quando um sujeito em pé ali do lado dirigiu-se para ele:
“Joca Lordão! Que bom que você veio, cara!”
Dudu, meio desconcertado, deu um sorriso amarelo e murmurou um “E aí?...” O sujeito ia arrastando ele pra dentro enquanto falava eufórico: “Nem acredito, você aqui! Diz a lenda que depois de João Gilberto você é o camarada que menos sai de casa, mas eu tive um pressentimento que hoje você ia aparecer! Desculpa, eu nem me apresentei, Jorginho Russomano da Planeta FM. Nem acredito! Tem uma pessoa aqui que quer muito te conhecer, vem!” Continuou andando pela casa entusiasmadíssimo com Dudu a tiracolo até chegar num grupo grande de pessoas, dentre as quais ele reconheceu uma meia dúzia de caras famosas. Naquele momento Dudu já estava arrependido de ter saído de casa e sentia o vexame iminente, desejava sair correndo, mas o falante Jorginho não dava nenhuma brecha.
Pararam na frente da nova estrela da cena rock, Beto Feroz, namorado contumaz de atrizes de novela. Jorginho exclamou: “Betão! Esse é o cara!”
Fazendo juz ao nome, Feroz lançou um olhar de desprezo para Dudu, mas mudou de expressão no segundo seguinte ao ouvir do sorridente Jorginho a apresentação: “Joca Lordão!”
“Mestre Joca!” disse Beto Feroz fazendo uma reverência no estilo oriental para um Dudu cada vez mais constrangido porque sentia que o burburinho em torno dele aumentava.
“Foi um milagre que te trouxe aqui, brother! Queria tanto armar com você aquele lance da entrevista, vai rolar mesmo? Semana que vem?” e o Dudu confuso respondia: “Vai, vai sim”.
“Mas que dia é o melhor? Segunda? Terça? Quarta eu tô em estúdio, mas se você preferir quarta eu posso dar um jeito...” Feroz tinha virado um gato manso e Dudu respondia vagamente: “Segunda... Terça...” Beto Feroz insistia: “Segunda? Terça? Que dia? Pra mim pode ser qualquer dia!”
Nisso uma morena fenomenal interrompeu o diálogo e perguntou para Dudu: “Joca Lordão?!”
Feroz, se sentindo sobrando, fechou o papo: “Joca, você é o cara da noite. Te ligo pra gente marcar o lance da entrevista. Valeu, brother!”
“Valeu...” respondeu o atônito Dudu, se virando para a morena que disse: “Eu acho que a gente se conheceu há um tempo atrás, só que... não sei, você tá diferente...” Ele teve a certeza que ia ser desmascarado ali, mas arriscou: “É, eu dei uma emagrecida...” A morena parecia confusa, no entanto estava disposta a continuar o papo cheia de simpatia:
“Olha, eu tenho até vergonha de te dizer isso, mas eu sempre admirei muito o seu trabalho! Esse pessoal que te critica, só pode ser porque não te conhece! E eu sempre defendi você porque...” e seguiu falando enquanto o Dudu respondia monossilabicamente.
Reconstruindo Joca Lordão
Os garçons passavam pra lá e pra cá com bandejas cheias de drinques incríveis e o Dudu achou que, já que estava ali, ia pelo menos aproveitar a fartura etílica. Foi se soltando e aos poucos gostando dos seus momentos como persona do show bizz, principalmente ao lado daquela morena.
O vocalista-galã de uma banda pop decadente chegou cortando a conversa:
“Joca Lordão! Há semanas eu tô tentando falar com você! Que honra te encontrar pessoalmente! Meu irmão, preciso te mandar a demo do nosso novo álbum! O Figurinha Fácil evoluiu muito musicalmente, eu tenho certeza que você vai sentir isso logo na primeira faixa...Você vai ficar amarradão!” e Dudu, meio contrariado porque a morena aproveitou a deixa e se afastou, respondeu “Claro, manda sim...” Sabia que o som da banda era um lixo e qualquer evolução era pouco provável, mas o outro continuou falando das maravilhas do novo álbum. Outras pessoas se aproximavam dele, faziam elogios, prestavam homenagens, davam tapinhas nas costas e ele retribuía sorrindo com um misto de timidez e humildade.
Dudu estava tonto e não conseguia descobrir se o tal Joca Lordão era jornalista, músico, executivo de gravadora ou magnata. Sua única certeza era de que seu alter-ego era muito poderoso. Quando foi ao banheiro, arranjou um canto escondido para ligar para a amiga:
“Quem é esse Joca Lordão, Catita?” e ela: “Por quê?”
“Porra! Você me meteu numa roubada!” Ele ouviu uma gargalhada do outro lado. No mesmo instante entrou no banheiro seu novo amigo Jorginho. Ele sussurrou: “Preciso desligar”.
Jorginho não se continha de orgulho por ter introduzido o grande homem junto a pessoas importantes: “E aí Joca? Curtindo a balada?” “Joinha” respondeu Dudu, usando uma palavra que fantasiou ser do vocabulário Lordaniano.
Saindo do banheiro, Dudu deu de cara com a morena, que o surpreendeu com um sorriso convidativo. Engataram novamente no papo e do papo para os beijos.
Dia seguinte
Dudu não conseguia lembrar como chegou em casa. O despertador tocou às 7hs, depois às 8hs, 9hs... Às 10hs teve forças de pegar o celular e ligar pro trabalho pra dizer que uma virose tinha acabado com ele.
Se lembrava vagamente de ter conversado com uma série de famosos (chegou a abraçar alguns?), de ter tirado fotos e dado uma canja cantando (teria tocado bateria também?). Mas eram apenas flashes. Virou para o lado e voltou a dormir. Sonhou que era o Mick Jagger e que estava em uma escuna na Riviera, cercado de modelos cantando “I can’t get no Satisfaction”.
Por sorte nenhum colega da repartição reconheceu Dudu, com uma morena no colo, na foto que saiu coluna social daquele dia. A legenda dizia: “Joca Lordão e Gisela Garcia em noite de agito no Balacobaco”.
Joca Lordão, o verdadeiro
Joca Lordão, nascido João Carlos da Silva, chegou no escritório por volta das 3hs da tarde. Passou direto para sua sala sem cumprimentar ninguém. Um pouco depois Viviane, sua assistente, entrou. Como de costume levava: dois maços de cigarro mentolado, um pacote de balas de tamarindo, o London Times (somente o suplemento cultural e as palavras-cruzadas), e uma taça de água com gás e uma azeitona verde dentro, porque o chefe estava tentando parar de tomar dry Martini pela “manhã”. Dispôs tudo meticulosamente sobre a mesa. Ele acendeu o primeiro cigarro. Era a senha para ela começar a passar os recados do dia.
“Bom dia, Joca. Hoje o telefone não parou de tocar! Uma loucura! O Beto Feroz ligou, disse que vocês ficaram de marcar uma entrevista para segunda ou terça e ele quer confirmar o dia e a hora e...” Joca interrompeu: “Beto Feroz? Beto Feroz? Você tá louca? Eu nunca falei com esse sujeitinho! Era só o que faltava! Não tem entrevista nem segunda, nem terça, nem nunca! É cada uma... inventar que falou comigo! É muita cara-de-pau pra tentar conseguir uma entrevista! Que vá bater lá no programa da Hebe!” Ela engoliu seco e continuou:
“O Alex Mariani..”
“Quem?!”
“O Alex Mariani, o vocalista daquela banda Figurinha Fácil disse que conversou com você ontem e ficou de mandar a demo do novo cd pra você dar sua opinião e...”
“Ô, ô, ô, escuta aqui ô Viviana”, ele gaguejava quando ficava nervoso e nunca falava certo o nome da assistente, “você fumou crack antes de eu chegar?! Quando é que você acha que eu ia dirigir a palavra a esse bostinha desse... esse... esse vocalistazinho dessa bandinha de m*, hein? Você manda esse babaca enfiar essa demo no c* dele, c*!” Ele rosnava e mastigava o cigarro como se fosse charuto.
Louca para acabar com aquilo, ela omitiu alguns outros recados imaginando que irritariam ainda mais o chefe e foi direto ao que julgou ser o único capaz de agradá-lo:
“A Gisela Garcia ligou e disse que adorou a noite, quer saber quando vocês podem se encontrar de novo.” Ele apertou os olhos, possesso:
“Ô, ô, ô, Viviana! V-v-você anda bebendo o meu Martini, c*?! Que, que, que, p* de Gisela, eu nem sei quem é essa vagabunda! V-v-vai, s-s-sai daqui!” Fez um gesto como quem espanta a pessoa com a mão e pegou mais um cigarro, enquanto o outro ainda queimava no cinzeiro.
Viviane suspirou ao voltar para a mesa. Quase sempre era assim, mas naquele dia ele estava especialmente azedo. Abriu o jornal e levou um susto ao ver uma foto, segundo a legenda, de Joca Lordão e Gisela Garcia na coluna social. O homem da foto definitivamente não era o chefe! Ficou intrigada e pensou “Esses jornalistas hoje em dia escrevem qualquer bobagem! Não apuram nada, nem se preocupam em checar os nomes das pessoas!...”
Dobrou o jornal e guardou na gaveta. Achou que não era uma boa hora para mostrar aquilo para o chefe, refletindo que o mau humor dele andava cada vez pior...
Dudu já tinha tomado seu Nescau noturno (cultivava esse hábito desde criança) e estava na frente da televisão naquele estado letárgico de quem espera o sono chegar, quando toca o telefone: “Dudu, tá acordado, véio?” Era a Catita, amiga de outros carnavais.
“Fala, Catita, tô sim, que manda?”
“Dudu, escuta, eu tô em São Paulo, fiquei presa numa reunião e não consegui voltar. Mas, se liga, tá rolando uma festa im-per-dí-vel no Balacobaco e eu lembrei de você, topa?”
Descoladíssima, a Catita sempre vinha com as boas de onde menos se esperava. Se ela dizia que a festa era imperdível, então devia ser mesmo. Esqueceu do pijama, do Nescau, do despertador que tocaria às 7hs e disse: “Topo”.
“Legal! Anota aí, o esquema é o seguinte, o seu nome vai estar na porta, mas você tem que dizer que é o Joca Lordão. Ele não vai com certeza, aí você entra com o nome dele.”
“Joca Lordão?”
“É, isso.”
“Beleza, Catita, valeu mesmo a lembrança! Depois te conto como foi.”
“Que é isso, véio, tranqüilo. Aproveita!”
Tomou banho e se arrumou em tempo recorde. Preferiu um visual despojado, mais ao estilo do Balacobaco. Tirou o carro da garagem e partiu rumo à noite inesperada.
Entrada
Chegou no local da festa e de longe viu que a amiga não tinha se enganado. Na pressa do telefonema até se esqueceu de perguntar do que ou de quem era a festa, mas pelo histórico da Catita desconfiava que fosse de alguém ligado ao meio artístico.
Deixou o carro com o manobrista e foi até a hostess, que estava cercada de gente. Seguindo as instruções da amiga, disse:
“Boa noite, Joca Lordão.”
Convidado VIP
Conferido o nome na lista, a hostess colocava uma pulserinha VIP no seu pulso quando um sujeito em pé ali do lado dirigiu-se para ele:
“Joca Lordão! Que bom que você veio, cara!”
Dudu, meio desconcertado, deu um sorriso amarelo e murmurou um “E aí?...” O sujeito ia arrastando ele pra dentro enquanto falava eufórico: “Nem acredito, você aqui! Diz a lenda que depois de João Gilberto você é o camarada que menos sai de casa, mas eu tive um pressentimento que hoje você ia aparecer! Desculpa, eu nem me apresentei, Jorginho Russomano da Planeta FM. Nem acredito! Tem uma pessoa aqui que quer muito te conhecer, vem!” Continuou andando pela casa entusiasmadíssimo com Dudu a tiracolo até chegar num grupo grande de pessoas, dentre as quais ele reconheceu uma meia dúzia de caras famosas. Naquele momento Dudu já estava arrependido de ter saído de casa e sentia o vexame iminente, desejava sair correndo, mas o falante Jorginho não dava nenhuma brecha.
Pararam na frente da nova estrela da cena rock, Beto Feroz, namorado contumaz de atrizes de novela. Jorginho exclamou: “Betão! Esse é o cara!”
Fazendo juz ao nome, Feroz lançou um olhar de desprezo para Dudu, mas mudou de expressão no segundo seguinte ao ouvir do sorridente Jorginho a apresentação: “Joca Lordão!”
“Mestre Joca!” disse Beto Feroz fazendo uma reverência no estilo oriental para um Dudu cada vez mais constrangido porque sentia que o burburinho em torno dele aumentava.
“Foi um milagre que te trouxe aqui, brother! Queria tanto armar com você aquele lance da entrevista, vai rolar mesmo? Semana que vem?” e o Dudu confuso respondia: “Vai, vai sim”.
“Mas que dia é o melhor? Segunda? Terça? Quarta eu tô em estúdio, mas se você preferir quarta eu posso dar um jeito...” Feroz tinha virado um gato manso e Dudu respondia vagamente: “Segunda... Terça...” Beto Feroz insistia: “Segunda? Terça? Que dia? Pra mim pode ser qualquer dia!”
Nisso uma morena fenomenal interrompeu o diálogo e perguntou para Dudu: “Joca Lordão?!”
Feroz, se sentindo sobrando, fechou o papo: “Joca, você é o cara da noite. Te ligo pra gente marcar o lance da entrevista. Valeu, brother!”
“Valeu...” respondeu o atônito Dudu, se virando para a morena que disse: “Eu acho que a gente se conheceu há um tempo atrás, só que... não sei, você tá diferente...” Ele teve a certeza que ia ser desmascarado ali, mas arriscou: “É, eu dei uma emagrecida...” A morena parecia confusa, no entanto estava disposta a continuar o papo cheia de simpatia:
“Olha, eu tenho até vergonha de te dizer isso, mas eu sempre admirei muito o seu trabalho! Esse pessoal que te critica, só pode ser porque não te conhece! E eu sempre defendi você porque...” e seguiu falando enquanto o Dudu respondia monossilabicamente.
Reconstruindo Joca Lordão
Os garçons passavam pra lá e pra cá com bandejas cheias de drinques incríveis e o Dudu achou que, já que estava ali, ia pelo menos aproveitar a fartura etílica. Foi se soltando e aos poucos gostando dos seus momentos como persona do show bizz, principalmente ao lado daquela morena.
O vocalista-galã de uma banda pop decadente chegou cortando a conversa:
“Joca Lordão! Há semanas eu tô tentando falar com você! Que honra te encontrar pessoalmente! Meu irmão, preciso te mandar a demo do nosso novo álbum! O Figurinha Fácil evoluiu muito musicalmente, eu tenho certeza que você vai sentir isso logo na primeira faixa...Você vai ficar amarradão!” e Dudu, meio contrariado porque a morena aproveitou a deixa e se afastou, respondeu “Claro, manda sim...” Sabia que o som da banda era um lixo e qualquer evolução era pouco provável, mas o outro continuou falando das maravilhas do novo álbum. Outras pessoas se aproximavam dele, faziam elogios, prestavam homenagens, davam tapinhas nas costas e ele retribuía sorrindo com um misto de timidez e humildade.
Dudu estava tonto e não conseguia descobrir se o tal Joca Lordão era jornalista, músico, executivo de gravadora ou magnata. Sua única certeza era de que seu alter-ego era muito poderoso. Quando foi ao banheiro, arranjou um canto escondido para ligar para a amiga:
“Quem é esse Joca Lordão, Catita?” e ela: “Por quê?”
“Porra! Você me meteu numa roubada!” Ele ouviu uma gargalhada do outro lado. No mesmo instante entrou no banheiro seu novo amigo Jorginho. Ele sussurrou: “Preciso desligar”.
Jorginho não se continha de orgulho por ter introduzido o grande homem junto a pessoas importantes: “E aí Joca? Curtindo a balada?” “Joinha” respondeu Dudu, usando uma palavra que fantasiou ser do vocabulário Lordaniano.
Saindo do banheiro, Dudu deu de cara com a morena, que o surpreendeu com um sorriso convidativo. Engataram novamente no papo e do papo para os beijos.
Dia seguinte
Dudu não conseguia lembrar como chegou em casa. O despertador tocou às 7hs, depois às 8hs, 9hs... Às 10hs teve forças de pegar o celular e ligar pro trabalho pra dizer que uma virose tinha acabado com ele.
Se lembrava vagamente de ter conversado com uma série de famosos (chegou a abraçar alguns?), de ter tirado fotos e dado uma canja cantando (teria tocado bateria também?). Mas eram apenas flashes. Virou para o lado e voltou a dormir. Sonhou que era o Mick Jagger e que estava em uma escuna na Riviera, cercado de modelos cantando “I can’t get no Satisfaction”.
Por sorte nenhum colega da repartição reconheceu Dudu, com uma morena no colo, na foto que saiu coluna social daquele dia. A legenda dizia: “Joca Lordão e Gisela Garcia em noite de agito no Balacobaco”.
Joca Lordão, o verdadeiro
Joca Lordão, nascido João Carlos da Silva, chegou no escritório por volta das 3hs da tarde. Passou direto para sua sala sem cumprimentar ninguém. Um pouco depois Viviane, sua assistente, entrou. Como de costume levava: dois maços de cigarro mentolado, um pacote de balas de tamarindo, o London Times (somente o suplemento cultural e as palavras-cruzadas), e uma taça de água com gás e uma azeitona verde dentro, porque o chefe estava tentando parar de tomar dry Martini pela “manhã”. Dispôs tudo meticulosamente sobre a mesa. Ele acendeu o primeiro cigarro. Era a senha para ela começar a passar os recados do dia.
“Bom dia, Joca. Hoje o telefone não parou de tocar! Uma loucura! O Beto Feroz ligou, disse que vocês ficaram de marcar uma entrevista para segunda ou terça e ele quer confirmar o dia e a hora e...” Joca interrompeu: “Beto Feroz? Beto Feroz? Você tá louca? Eu nunca falei com esse sujeitinho! Era só o que faltava! Não tem entrevista nem segunda, nem terça, nem nunca! É cada uma... inventar que falou comigo! É muita cara-de-pau pra tentar conseguir uma entrevista! Que vá bater lá no programa da Hebe!” Ela engoliu seco e continuou:
“O Alex Mariani..”
“Quem?!”
“O Alex Mariani, o vocalista daquela banda Figurinha Fácil disse que conversou com você ontem e ficou de mandar a demo do novo cd pra você dar sua opinião e...”
“Ô, ô, ô, escuta aqui ô Viviana”, ele gaguejava quando ficava nervoso e nunca falava certo o nome da assistente, “você fumou crack antes de eu chegar?! Quando é que você acha que eu ia dirigir a palavra a esse bostinha desse... esse... esse vocalistazinho dessa bandinha de m*, hein? Você manda esse babaca enfiar essa demo no c* dele, c*!” Ele rosnava e mastigava o cigarro como se fosse charuto.
Louca para acabar com aquilo, ela omitiu alguns outros recados imaginando que irritariam ainda mais o chefe e foi direto ao que julgou ser o único capaz de agradá-lo:
“A Gisela Garcia ligou e disse que adorou a noite, quer saber quando vocês podem se encontrar de novo.” Ele apertou os olhos, possesso:
“Ô, ô, ô, Viviana! V-v-você anda bebendo o meu Martini, c*?! Que, que, que, p* de Gisela, eu nem sei quem é essa vagabunda! V-v-vai, s-s-sai daqui!” Fez um gesto como quem espanta a pessoa com a mão e pegou mais um cigarro, enquanto o outro ainda queimava no cinzeiro.
Viviane suspirou ao voltar para a mesa. Quase sempre era assim, mas naquele dia ele estava especialmente azedo. Abriu o jornal e levou um susto ao ver uma foto, segundo a legenda, de Joca Lordão e Gisela Garcia na coluna social. O homem da foto definitivamente não era o chefe! Ficou intrigada e pensou “Esses jornalistas hoje em dia escrevem qualquer bobagem! Não apuram nada, nem se preocupam em checar os nomes das pessoas!...”
Dobrou o jornal e guardou na gaveta. Achou que não era uma boa hora para mostrar aquilo para o chefe, refletindo que o mau humor dele andava cada vez pior...
o sem-teto
a nossa realidade anda tão, mas tão distorcida, que a gente se acostuma com tudo o que não é pra ser considerado "normal" - violência, miséria, falta de gentileza, etc. comigo aconteceu uma coisa ainda mais esquisita: não só me acostumei com o sem-teto que passa as noites embaixo da marquise do meu prédio como passei a nutrir uma simpatia por ele. é um sem-teto relativamente novo, não sei precisar a idade, mas já passou da adolescência. ele guarda suas coisas em uma mala de rodinha dessas grandes e tem um cachorro preto que está sempre com ele. quase toda noite quando eu chego, ele está deitado em um colchão com sua coberta (o "ambiente" tem uma certa ordem) lendo um livro ou simplesmente fazendo um carinho no cachorro ou dormindo abraçado com ele. é, no mínimo diferente.
do lado de casa tem um restaurante-lounge-sei-lá-mais-que metido a granfino. ontem quando nós chegamos, estacionada a uns três metros da "casa" do sem-teto, estava uma mercedes dessas coupê. eu não sou daquelas que acha criminoso ter uma mercedes, mesmo no brasil (desde que ela tenha sido comprada com dinheiro "limpo"), apesar de achar que eu mesma jamais teria uma, ainda que tivesse condições. mas uma cena dessas não deixa de ser desconcertante e põe a gente pra pensar no cânion social que vai se abrindo numa sociedade como essa onde, ao mesmo tempo, as distâncias físicas da desigualdade são mínimas.
do lado de casa tem um restaurante-lounge-sei-lá-mais-que metido a granfino. ontem quando nós chegamos, estacionada a uns três metros da "casa" do sem-teto, estava uma mercedes dessas coupê. eu não sou daquelas que acha criminoso ter uma mercedes, mesmo no brasil (desde que ela tenha sido comprada com dinheiro "limpo"), apesar de achar que eu mesma jamais teria uma, ainda que tivesse condições. mas uma cena dessas não deixa de ser desconcertante e põe a gente pra pensar no cânion social que vai se abrindo numa sociedade como essa onde, ao mesmo tempo, as distâncias físicas da desigualdade são mínimas.
os classe ab sem-noção
(parte 1)
assim como já disse que a inteligência não tem nada a ver com classe social, da mesma forma está claro pra mim que a educação (ou falta de) também não. talvez ainda exista uma ilusão de que boas maneiras e um nível econômico mais alto estão correlacionados, afinal de contas, teoricamente, aquele que tem condições é mais “escrarecido”, como diria minha avó, pouco letrada e educadíssima. que ninguém se engane! os classe ab sem-noção fazem bandalhas como quaisquer outros. eles estão por toda parte e vão pouco a pouco envenenando o nosso dia-a-dia.
pra mim, as pessoas que andam no acostamento são as mesmas que furam fila e atendem o celular no teatro. trata-se da mesma raça que joga lixo na praia, na rua ou pela janela do carro. ou seja, o tipo de gente que deixa o cão cagar na rua e não limpa, que coloca o som alto em qualquer lugar, não importa a hora ou que compra coisas roubadas porque é mais barato.
esse povo só pode ser farinha do mesmo saco, porque suas condutas se baseiam em uma premissa única: o mundo gira em torno do meu umbigo, danem-se os outros. por “menores” que possam parecer suas faltas, elas denotam um tipo de princípio que representa a degradação da vida em sociedade.
definitivamente essas pessoas não merecem o meu respeito. para elas eu rogo uma praga bem pior do que uma simples diarréia com tosse eterna. imagino um castigo com um pouco mais de requintes de crueldade.
(parte 2)
a praga
considerando que os classe ab sem-noção têm um comportamento relativamente homogêneo, para facilitar o projeto de vingança vou criar um personagem, chamado abílio, que representa esse tipo de gente ao qual me refiro.
o que eu desejo que aconteça é mais ou menos o seguinte:
para ostentar seus pequenos luxos, abílio se endivida no cartão. depois de quebrar no banco, no ibi, na liderança e no taíí, abílio vai pedir um empréstimo na zogbi, a financeira que tem o netinho como garoto-propaganda. sua “desmoralização” começa aí, mas isso é apenas o início.
abílio está sem grana mas não perde a pose. um dia, enquanto dirigia feito louco, o carro da sua frente joga uma lata pela janela que bate no seu vidro. abílio perde a direção e bate. sai com algumas luxações, seu carro fica estropiado, mas ele não tem dinheiro para consertar. como seu plano de saúde está atrasado, abílio é obrigado a ir para um hospital do sus. chegando lá, padece horas na fila, porque alguns casos mais urgentes passam sua frente. seu estado não é grave, mas resolvem deixá-lo em observação, num quarto cheio de pacientes que gemem bastante durante a noite. fica esquecido por uma semana, ao fim da qual pega uma infecção hospitalar. a situação se complica e, ao fim de mais uma semana, abílio fica paralítico. entrou no hospital luxado e saiu de cadeira de rodas.
por causa de sua nova condição de cadeirante, abílio se muda para o andar térreo do prédio. seus vizinhos de cima não respeitam e jogam toda a sorte de porcarias no seu quintal, que ele recolhe com imensa dificuldade. o namorado da vizinha costuma parar o carro bem embaixo da sua janela e liga o rádio bem alto enquanto espera a amada descer. é a mesma coisa na volta, em torno das 3hs da manhã. abílio sofre de insônia e geralmente à essa hora acabou de dormir quando é acordado novamente pelo som do carro aos berros.
um dia, perambulando pela rua e se perguntando que mal fez pra merecer esse destino, abílio passa sem perceber com a roda da sua cadeira em um belo cocô de cachorro. sua mão se enche de merda. como a roda da cadeira é cheia de nervurinhas, os pedacinhos de cocô ficam presos nela e vão se soltando no tapete de abílio quando ele chega em casa. o ambiente fica com um fedor incrível.
abílio está a ponto de explodir. com a casa imunda e fedendo a merda, resolve dar um fim na própria vida. conclui que a maneira mais simples de se matar é enfiando a cabeça no forno. depois de passar algumas horas retorcido ao pé do fogão, percebe que não está nem perto do alívio da morte. então se lembra: há meses não paga a conta de gás.
***
cuidado, abílios do meu brasil. praga de libanesa costuma ser tiro e queda.
assim como já disse que a inteligência não tem nada a ver com classe social, da mesma forma está claro pra mim que a educação (ou falta de) também não. talvez ainda exista uma ilusão de que boas maneiras e um nível econômico mais alto estão correlacionados, afinal de contas, teoricamente, aquele que tem condições é mais “escrarecido”, como diria minha avó, pouco letrada e educadíssima. que ninguém se engane! os classe ab sem-noção fazem bandalhas como quaisquer outros. eles estão por toda parte e vão pouco a pouco envenenando o nosso dia-a-dia.
pra mim, as pessoas que andam no acostamento são as mesmas que furam fila e atendem o celular no teatro. trata-se da mesma raça que joga lixo na praia, na rua ou pela janela do carro. ou seja, o tipo de gente que deixa o cão cagar na rua e não limpa, que coloca o som alto em qualquer lugar, não importa a hora ou que compra coisas roubadas porque é mais barato.
esse povo só pode ser farinha do mesmo saco, porque suas condutas se baseiam em uma premissa única: o mundo gira em torno do meu umbigo, danem-se os outros. por “menores” que possam parecer suas faltas, elas denotam um tipo de princípio que representa a degradação da vida em sociedade.
definitivamente essas pessoas não merecem o meu respeito. para elas eu rogo uma praga bem pior do que uma simples diarréia com tosse eterna. imagino um castigo com um pouco mais de requintes de crueldade.
(parte 2)
a praga
considerando que os classe ab sem-noção têm um comportamento relativamente homogêneo, para facilitar o projeto de vingança vou criar um personagem, chamado abílio, que representa esse tipo de gente ao qual me refiro.
o que eu desejo que aconteça é mais ou menos o seguinte:
para ostentar seus pequenos luxos, abílio se endivida no cartão. depois de quebrar no banco, no ibi, na liderança e no taíí, abílio vai pedir um empréstimo na zogbi, a financeira que tem o netinho como garoto-propaganda. sua “desmoralização” começa aí, mas isso é apenas o início.
abílio está sem grana mas não perde a pose. um dia, enquanto dirigia feito louco, o carro da sua frente joga uma lata pela janela que bate no seu vidro. abílio perde a direção e bate. sai com algumas luxações, seu carro fica estropiado, mas ele não tem dinheiro para consertar. como seu plano de saúde está atrasado, abílio é obrigado a ir para um hospital do sus. chegando lá, padece horas na fila, porque alguns casos mais urgentes passam sua frente. seu estado não é grave, mas resolvem deixá-lo em observação, num quarto cheio de pacientes que gemem bastante durante a noite. fica esquecido por uma semana, ao fim da qual pega uma infecção hospitalar. a situação se complica e, ao fim de mais uma semana, abílio fica paralítico. entrou no hospital luxado e saiu de cadeira de rodas.
por causa de sua nova condição de cadeirante, abílio se muda para o andar térreo do prédio. seus vizinhos de cima não respeitam e jogam toda a sorte de porcarias no seu quintal, que ele recolhe com imensa dificuldade. o namorado da vizinha costuma parar o carro bem embaixo da sua janela e liga o rádio bem alto enquanto espera a amada descer. é a mesma coisa na volta, em torno das 3hs da manhã. abílio sofre de insônia e geralmente à essa hora acabou de dormir quando é acordado novamente pelo som do carro aos berros.
um dia, perambulando pela rua e se perguntando que mal fez pra merecer esse destino, abílio passa sem perceber com a roda da sua cadeira em um belo cocô de cachorro. sua mão se enche de merda. como a roda da cadeira é cheia de nervurinhas, os pedacinhos de cocô ficam presos nela e vão se soltando no tapete de abílio quando ele chega em casa. o ambiente fica com um fedor incrível.
abílio está a ponto de explodir. com a casa imunda e fedendo a merda, resolve dar um fim na própria vida. conclui que a maneira mais simples de se matar é enfiando a cabeça no forno. depois de passar algumas horas retorcido ao pé do fogão, percebe que não está nem perto do alívio da morte. então se lembra: há meses não paga a conta de gás.
***
cuidado, abílios do meu brasil. praga de libanesa costuma ser tiro e queda.
não-ficção: o gato de jesus
a mais nova tinha um gato e a mais velha vivia implicando com ele. tem gente que não é muito afeita aos bichanos em geral, e a mais velha pertencia a essa categoria. um dia a mais nova foi pra escola e quando voltou, não encontrou mais o gato em casa. a mais velha tornou-se a principal suspeita de ter dado um sumiço no bicho de estimação da irmã. depois de ter negado veementemente, ficou um pouco chateada, afinal de contas não tinha simpatia pelo gato, mas também não era nenhuma assassina de animais. na esperança de recuperar o bichinho, os pais espalharam uns cartazes na vizinhança, pedindo que quem encontrasse um gato com as características assim e assim, devolvesse na casa tal. passaram uns dias e nada de notícias.
nesse meio tempo, a mais nova estava passando pelo centro da cidade e viu um gatinho sendo vendido numa gaiola minúscula, exposto sob um sol inclemente. ficou arrasada. contou a história para o pai que, penalizado, resolveu ir até lá e comprar o gato desidratado para a filha, como uma forma também de compensar a perda do outro. a mais velha dessa vez não disse nada, achou que se se manifestasse contra o novo gato e algo acontecesse, se sentiria culpada.
dias depois, o pai chega com uma carta deixada na caixa do correio, que dizia mais ou menos assim:
“no outro dia vi uma menina saindo para a escola de manhã cedo e quando ela abriu o portão de casa vi que um gatinho escapuliu. ME APAIXONEI. peguei o gatinho para mim. não foi roubo, o gato fugiu. fiquem tranqüilos, o gato está sendo muito bem tratado. MAS NÃO VOU DEVOLVER!!! que deus abençoe esta família.” a carta terminava com um salmo.
todos ficaram perplexos de alguém roubar um gato e ainda dar satisfação através de uma cartinha anônima pra lá de esquisita. a mãe começou a matutar e concluiu que, para a pessoa ter visto a filha saindo de manhã bem cedo, provavelmente morava nas redondezas. e que, por causa do salmo escrito no final, deveria ser evangélica. assim, resolveram reeditar o cartaz de “procura-se”, incluindo um salmo pertinente à situação, e colocaram no quadro de avisos da igreja evangélica do bairro. não acreditaram que ia dar em alguma coisa, mas se o ladrão de gatos entendesse o recado, ficaria pelo menos constrangido.
era um sábado e a família estava reunida na varanda, quando de repente vêem um objeto não-identificado de plástico voar por cima do muro. ainda sob o efeito do susto, decidem abrir o saco e, para espanto geral, sai de lá o gatinho roubado, devolvido pelo crente “arrependido” ou, no mínimo, enfurecido. assim, apesar dos elementos bizarros, a história teve final feliz para todos. ou melhor, para todos menos para a mais velha porque, como se não fosse suficiente para ela ter que aturar um gato, acabou tendo que conviver com dois!
[ouvi essa história há uns meses e achei ela tão boa que quis deixar registrada. aos que me contaram, perdoem se não fui tão fiel aos fatos. façam de conta que é licença poética! ;)]
nesse meio tempo, a mais nova estava passando pelo centro da cidade e viu um gatinho sendo vendido numa gaiola minúscula, exposto sob um sol inclemente. ficou arrasada. contou a história para o pai que, penalizado, resolveu ir até lá e comprar o gato desidratado para a filha, como uma forma também de compensar a perda do outro. a mais velha dessa vez não disse nada, achou que se se manifestasse contra o novo gato e algo acontecesse, se sentiria culpada.
dias depois, o pai chega com uma carta deixada na caixa do correio, que dizia mais ou menos assim:
“no outro dia vi uma menina saindo para a escola de manhã cedo e quando ela abriu o portão de casa vi que um gatinho escapuliu. ME APAIXONEI. peguei o gatinho para mim. não foi roubo, o gato fugiu. fiquem tranqüilos, o gato está sendo muito bem tratado. MAS NÃO VOU DEVOLVER!!! que deus abençoe esta família.” a carta terminava com um salmo.
todos ficaram perplexos de alguém roubar um gato e ainda dar satisfação através de uma cartinha anônima pra lá de esquisita. a mãe começou a matutar e concluiu que, para a pessoa ter visto a filha saindo de manhã bem cedo, provavelmente morava nas redondezas. e que, por causa do salmo escrito no final, deveria ser evangélica. assim, resolveram reeditar o cartaz de “procura-se”, incluindo um salmo pertinente à situação, e colocaram no quadro de avisos da igreja evangélica do bairro. não acreditaram que ia dar em alguma coisa, mas se o ladrão de gatos entendesse o recado, ficaria pelo menos constrangido.
era um sábado e a família estava reunida na varanda, quando de repente vêem um objeto não-identificado de plástico voar por cima do muro. ainda sob o efeito do susto, decidem abrir o saco e, para espanto geral, sai de lá o gatinho roubado, devolvido pelo crente “arrependido” ou, no mínimo, enfurecido. assim, apesar dos elementos bizarros, a história teve final feliz para todos. ou melhor, para todos menos para a mais velha porque, como se não fosse suficiente para ela ter que aturar um gato, acabou tendo que conviver com dois!
[ouvi essa história há uns meses e achei ela tão boa que quis deixar registrada. aos que me contaram, perdoem se não fui tão fiel aos fatos. façam de conta que é licença poética! ;)]
iemanjá 2.0
antes ela gostava de pulseiras, brincos, flores e perfume. hoje em dia até ela entrou literalmente na onda digital. no sábado tentou levar meu segundo celular! já não se fazem mais orixás como antigamente...
devaneios sobre bethânia
no outro dia fui no show dela. muito bom, como já esperava, mas deixo para os críticos falarem mais sobre o assunto. o que eu não esperava era a tamanha falta de educação das pessoas. se eu tivesse ido a um show (?!) do chiclete com banana (espero nunca merecer esse castigo), teria uma idéia do naipe do público, mas achei que com a bethânia tudo seria diferente. se bem que me iludi, como ela tá com uma música na abertura da novela das oito, os classe ab sem-noção devem ter baixado lá para ouvir "copacabaaaana" ao vivo. não paravam de falar durante o show. meu povo, quer conversar, vai pra um restaurante! mas imagino que até o canecão esquece que seu principal negócio é ser uma casa de shows e dá uma restaurante mesmo, porque é um tal de garçom passando pra lá e pra cá irritante. se querem descolar um trocado vendendo comida, bebida e foto (e tem quem compre!), tudo bem, mas que suspendam o serviço durante o show! ou seja, tive que usar todo meu poder de abstração pra não achar que estava numa churrascaria de quinta com música (de primeira) ao vivo.
acho que não me concentrei suficientemente. ao longo do show, entre um olhar de cara feia e outro pros mal educados da mesa e do entorno, entre um suspiro de admiração e outro pelas músicas e pelo cenário, me peguei em alguns devaneios despropositados. comecei a pensar na pessoa maria bethânia. hoje em dia é muito comum os artistas exporem publicamente suas vidas, suas casas, o que pensam, o que fazem o que consomem, e até - quiçá principalmente - suas intrigas conjugais. tem uma gente pop-star cujas preferências eu devo conhecer mais que as dos meus amigos, de tanto que isso sai na mídia o tempo todo. mas a maria bethânia não é dessas, então fiquei curiosa. ela tem cara de ser durona, talvez até um pouco difícil de lidar. por outro lado, parece ser toda riponga, daquelas que nunca pisou num shopping. será que ela já pisou num shopping? quem será que faz as compras na casa dela? será que ela vai ao mercado? o que será que ela faz com o dinheiro que ganha? investe na bolsa? compra imóveis? doa pra caridade? se ela sai na rua (será que dirige ou tem motorista?), ela sai descalça? mas uma dúvida me intrigou mais do que as outras e não saiu da minha cabeça durante o show: será que a maria bethânia usa calcinha? e se usa, de que tipo? sei que são curiosidades sem o menor fundamento que só uma mente doentia como a minha poderia ter. sei também que são perguntas que nunca irão calar, porque jamais a maria bethânia vai falar sobre essas coisas em uma revista de celebridades (graças a deus!). ainda bem que eu posso usar minha imaginação fértil e ficar pensando nas mil possibilidades de resposta para essas dúvidas inúteis. ah! se eu acho que ela usa calcinha? talvez, ou aquelas sem elástico da trifil ou umas de algodão orgânico confeccionadas pelas rendeiras de santo amaro. pelo menos, fiz uma descoberta incrível de que temos uma coisa em comum: nós duas trabalhamos descalças!
e antes que eu me esqueça! ainda um outro pensamento bizarro ficou me rondando durante o show: pra mim, a melhor versão de maria bethânia é... didi mocó! impagável em sua interpretação de teresinha do chico, com mussum chegando do bar e dedé de galanteador. se a bethânia tivesse cantado teresinha no show acho que eu teria tido um delírio nostálgico e veria o didi na minha frente!
como disse o bruno, não morra antes de ir ver a bethânia cantar. mas, quando for, por favor, preste mais atenção na música e não fique pensando bobagem!
acho que não me concentrei suficientemente. ao longo do show, entre um olhar de cara feia e outro pros mal educados da mesa e do entorno, entre um suspiro de admiração e outro pelas músicas e pelo cenário, me peguei em alguns devaneios despropositados. comecei a pensar na pessoa maria bethânia. hoje em dia é muito comum os artistas exporem publicamente suas vidas, suas casas, o que pensam, o que fazem o que consomem, e até - quiçá principalmente - suas intrigas conjugais. tem uma gente pop-star cujas preferências eu devo conhecer mais que as dos meus amigos, de tanto que isso sai na mídia o tempo todo. mas a maria bethânia não é dessas, então fiquei curiosa. ela tem cara de ser durona, talvez até um pouco difícil de lidar. por outro lado, parece ser toda riponga, daquelas que nunca pisou num shopping. será que ela já pisou num shopping? quem será que faz as compras na casa dela? será que ela vai ao mercado? o que será que ela faz com o dinheiro que ganha? investe na bolsa? compra imóveis? doa pra caridade? se ela sai na rua (será que dirige ou tem motorista?), ela sai descalça? mas uma dúvida me intrigou mais do que as outras e não saiu da minha cabeça durante o show: será que a maria bethânia usa calcinha? e se usa, de que tipo? sei que são curiosidades sem o menor fundamento que só uma mente doentia como a minha poderia ter. sei também que são perguntas que nunca irão calar, porque jamais a maria bethânia vai falar sobre essas coisas em uma revista de celebridades (graças a deus!). ainda bem que eu posso usar minha imaginação fértil e ficar pensando nas mil possibilidades de resposta para essas dúvidas inúteis. ah! se eu acho que ela usa calcinha? talvez, ou aquelas sem elástico da trifil ou umas de algodão orgânico confeccionadas pelas rendeiras de santo amaro. pelo menos, fiz uma descoberta incrível de que temos uma coisa em comum: nós duas trabalhamos descalças!
e antes que eu me esqueça! ainda um outro pensamento bizarro ficou me rondando durante o show: pra mim, a melhor versão de maria bethânia é... didi mocó! impagável em sua interpretação de teresinha do chico, com mussum chegando do bar e dedé de galanteador. se a bethânia tivesse cantado teresinha no show acho que eu teria tido um delírio nostálgico e veria o didi na minha frente!
como disse o bruno, não morra antes de ir ver a bethânia cantar. mas, quando for, por favor, preste mais atenção na música e não fique pensando bobagem!
o paradoxo do guarda-chuva
eis um objeto hediondo, o guarda-chuva. a grande razão para odiá-lo consiste em não terem inventado nada melhor, ou seja, ruim com ele, pior sem ele. se existisse algum substituto para o guarda-chuva, ele saíria da categoria de objeto detestável para ser apenas desprezível. mas como não conseguiram, em pleno século XXI, criar uma alternativa a ele, somos obrigados a conviver com sua existência.
você deve estar pensando, por que um inocente guarda-chuva, sendo a melhor opção disponível nos dias chuvosos, é capaz de suscitar tanta cólera? ora, por vários motivos! vamos aos fatos:
- o primeiro deles, como falei, é justamente o fato do guarda-chuva ser a melhor opção disponível. isso me faz lembrar como somos limitados, nós humanos: capazes de ir à lua, mas incapazes de criar uma película impermeável transparente, acionável ao toque, que proteja da chuva, ou coisa que o valha. o que, a propósito, seria muito mais útil do que andar flanando galáxia afora...
- porque, estamos de acordo, um guarda-chuva faz tudo, menos proteger da chuva. ele pode impedir que alguma parte do seu cabelo e da sua roupa se molhe, mas certamente seus sapatos, seus braços, sua bolsa ou mochila não escaparão incólumes.
- se a chuva for de vento então, não só o guarda-chuva será totalmente inútil, como te exporá ao ridículo porque vai virar ao contrário, te carregando junto com a ventania, em uma cena digna de piedade.
- fora isso, eles não passam em lugares estreitos e, em ruas cheias, podem causar cegueira e outros estragos.
- o guarda-chuva inutiliza uma mão e limita seus movimentos. não invente de falar no celular segurando um guarda-chuva. ou melhor, não invente de fazer nada, caso contrário as chances de acontecer um acidente são altas.
- dividir um guarda-chuva é a maneira mais eficaz de deixar duas pessoas molhadas.
- quando você vai para um lugar coberto e finalmente fecha o guarda-chuva, fica sem ter o que fazer com aquela coisa molhada e pingando e deseja se livrar daquilo o mais rápido possível.
- se a chuva passa você simplesmente esquece que ele existe e larga o guarda-chuva onde estava: no cinema, no restaurante, no ônibus ou qualquer outro lugar.
- o tempo está estranho e você coloca o guarda-chuva na bolsa, por precaução. então, abre um sol de rachar e você passa a semana inteira andando com aquele trambolho pra cima e pra baixo se achando o pior dos manés. aí, num arroubo de atitude você cansa de ser otário e resolve tirar o guarda-chuva da bolsa. e cai a pior tempestade dos últimos quarenta anos.
portanto, acredito que os motivos acima listados sejam suficientes para convencer os inventores, cientistas e projetistas a se empenharem em desenvolver qualquer aparato, tecnológico ou não, mais eficiente que o guarda-chuva. fica aqui registrado o meu apelo e minha esperança de viver em um futuro em que o guarda-chuva seja tão obsoleto quanto uma máquina de escrever.
você deve estar pensando, por que um inocente guarda-chuva, sendo a melhor opção disponível nos dias chuvosos, é capaz de suscitar tanta cólera? ora, por vários motivos! vamos aos fatos:
- o primeiro deles, como falei, é justamente o fato do guarda-chuva ser a melhor opção disponível. isso me faz lembrar como somos limitados, nós humanos: capazes de ir à lua, mas incapazes de criar uma película impermeável transparente, acionável ao toque, que proteja da chuva, ou coisa que o valha. o que, a propósito, seria muito mais útil do que andar flanando galáxia afora...
- porque, estamos de acordo, um guarda-chuva faz tudo, menos proteger da chuva. ele pode impedir que alguma parte do seu cabelo e da sua roupa se molhe, mas certamente seus sapatos, seus braços, sua bolsa ou mochila não escaparão incólumes.
- se a chuva for de vento então, não só o guarda-chuva será totalmente inútil, como te exporá ao ridículo porque vai virar ao contrário, te carregando junto com a ventania, em uma cena digna de piedade.
- fora isso, eles não passam em lugares estreitos e, em ruas cheias, podem causar cegueira e outros estragos.
- o guarda-chuva inutiliza uma mão e limita seus movimentos. não invente de falar no celular segurando um guarda-chuva. ou melhor, não invente de fazer nada, caso contrário as chances de acontecer um acidente são altas.
- dividir um guarda-chuva é a maneira mais eficaz de deixar duas pessoas molhadas.
- quando você vai para um lugar coberto e finalmente fecha o guarda-chuva, fica sem ter o que fazer com aquela coisa molhada e pingando e deseja se livrar daquilo o mais rápido possível.
- se a chuva passa você simplesmente esquece que ele existe e larga o guarda-chuva onde estava: no cinema, no restaurante, no ônibus ou qualquer outro lugar.
- o tempo está estranho e você coloca o guarda-chuva na bolsa, por precaução. então, abre um sol de rachar e você passa a semana inteira andando com aquele trambolho pra cima e pra baixo se achando o pior dos manés. aí, num arroubo de atitude você cansa de ser otário e resolve tirar o guarda-chuva da bolsa. e cai a pior tempestade dos últimos quarenta anos.
portanto, acredito que os motivos acima listados sejam suficientes para convencer os inventores, cientistas e projetistas a se empenharem em desenvolver qualquer aparato, tecnológico ou não, mais eficiente que o guarda-chuva. fica aqui registrado o meu apelo e minha esperança de viver em um futuro em que o guarda-chuva seja tão obsoleto quanto uma máquina de escrever.
24 horas
dia claro, jazz na tva, almoço com mãe, alho, manjericão e alecrim para aromatizar o azeite, unha feita com esmalte novo, corte de cabelo, chico no itunes, caneca da frida kahlo de presente, original de garrafa com amigos, sono pesado, café da manhã em pé na cozinha com ele, dia claro.
felicidade em pequenas porções nas últimas 24 horas.
felicidade em pequenas porções nas últimas 24 horas.
humor climático: modo de usar
minha saúde é razoavelmente legal. não tenho alergia, não tenho enxaqueca, nem rinite, faringite, bronquite e outros ites. não costumo sofrer nem da famigerada tpm que acomete a maioria das minhas colegas de gênero. devo ficar doente em média umas duas ou três vezes por ano, o que pra mim é uma boa estatística. destesto tomar remédio, não confio nos médicos de hoje em dia, não costumo freqüentar emergências, portanto fico sem assunto quando as enfermidades entram na pauta de alguma conversa.
mas, como nem tudo é perfeito, existe uma doença crônica da qual eu padeço que não faz parte da lista de patologias da oms. ela se chama humor climático e ataca pessoas sensíveis ao frio e à chuva, deixando esses indivíduos depressivos, irritadiços, sorumbáticos, cabisbaixos e/ou ferozes. fui diagnosticada pela primeira vez quando, ao viver por um tempo no hemisfério norte, passaram a me chamar de “girassol”. tempo bom: melhor pessoa pra se conviver; tempo fechou: cuidado, cão raivoso. aí comecei a me dar conta que alguma questão emocional-biológica me ligava ao astro-rei. preciso do sol, mesmo que não esteja sob ele, preciso saber que ele está ali. “vai pela sombra” não serve pra mim, eu ando do lado do sol.
pessoas que sofrem de humor climático ficam emocionalmente abaladas durante o inverno e suspiram de alívio quando ele vai embora. pessoalmente acho que a população mundial seria bem mais feliz se essa estação fosse suprimida, não do calendário, evidentemente, mas da conjunção atmosférica do planeta. ok, as plantinhas têm que viver, então podia chover, assim, uns dez minutos por dia, todo dia. acho que seria suficiente. mas frio? frio não faz o menor sentido, frio só serve pra deixar a gente deprimido e ativar o botão "vamos fazer um fondue", que nós cariocas trazemos no dna. também não sei de onde tiraram essa história de que "as pessoas ficam mais elegantes no inverno", isso pra mim é desculpa pra quem não está em dia com o espelho e acha que fica melhor embaixo de um monte de camadas roupas.
felizmente vivo nos trópicos, em uma cidade com um índice pluviométrico baixo e temperaturas altas. assim, os sintomas da minha doença não se manifestam com tanta freqüência - para o bem daqueles que convivem comigo. se por destino, contingência, trabalho, dinheiro ou amor, algum dia eu tenha que ir morar em um lugar onde faça frio de fato, talvez me adapte. adaptação não significa cura, apenas é possível que eu amenize os sintomas procurando ver o lado bom do frio, se é que isso existe. por enquanto, até setembro chegar, eu fico rezando para o termômetro não ficar abaixo dos 20 graus (sim, menos que isso já começa a era glacial). e se a temperatura cair, me resta a) fazer um fondue; b) tentar ficar "elegante"usando cachecóis variados; ou c) fazer terapia de grupo com outras vítimas do humor climático. se nada disso funcionar e eu continuar intragável, me perdoe. ou, como diria roberto carlos, me aqueça nesse inverno.
mas, como nem tudo é perfeito, existe uma doença crônica da qual eu padeço que não faz parte da lista de patologias da oms. ela se chama humor climático e ataca pessoas sensíveis ao frio e à chuva, deixando esses indivíduos depressivos, irritadiços, sorumbáticos, cabisbaixos e/ou ferozes. fui diagnosticada pela primeira vez quando, ao viver por um tempo no hemisfério norte, passaram a me chamar de “girassol”. tempo bom: melhor pessoa pra se conviver; tempo fechou: cuidado, cão raivoso. aí comecei a me dar conta que alguma questão emocional-biológica me ligava ao astro-rei. preciso do sol, mesmo que não esteja sob ele, preciso saber que ele está ali. “vai pela sombra” não serve pra mim, eu ando do lado do sol.
pessoas que sofrem de humor climático ficam emocionalmente abaladas durante o inverno e suspiram de alívio quando ele vai embora. pessoalmente acho que a população mundial seria bem mais feliz se essa estação fosse suprimida, não do calendário, evidentemente, mas da conjunção atmosférica do planeta. ok, as plantinhas têm que viver, então podia chover, assim, uns dez minutos por dia, todo dia. acho que seria suficiente. mas frio? frio não faz o menor sentido, frio só serve pra deixar a gente deprimido e ativar o botão "vamos fazer um fondue", que nós cariocas trazemos no dna. também não sei de onde tiraram essa história de que "as pessoas ficam mais elegantes no inverno", isso pra mim é desculpa pra quem não está em dia com o espelho e acha que fica melhor embaixo de um monte de camadas roupas.
felizmente vivo nos trópicos, em uma cidade com um índice pluviométrico baixo e temperaturas altas. assim, os sintomas da minha doença não se manifestam com tanta freqüência - para o bem daqueles que convivem comigo. se por destino, contingência, trabalho, dinheiro ou amor, algum dia eu tenha que ir morar em um lugar onde faça frio de fato, talvez me adapte. adaptação não significa cura, apenas é possível que eu amenize os sintomas procurando ver o lado bom do frio, se é que isso existe. por enquanto, até setembro chegar, eu fico rezando para o termômetro não ficar abaixo dos 20 graus (sim, menos que isso já começa a era glacial). e se a temperatura cair, me resta a) fazer um fondue; b) tentar ficar "elegante"usando cachecóis variados; ou c) fazer terapia de grupo com outras vítimas do humor climático. se nada disso funcionar e eu continuar intragável, me perdoe. ou, como diria roberto carlos, me aqueça nesse inverno.
a triste constatação
se você é habitante da banda oriental desse mundo, então provavelmente passa uma boa parte do seu dia tendo que dar respostas. ninguém vai te incomodar ou te criticar se você tiver uma resposta na ponta da língua. resposta, satisfação, diagnóstico, culpados, resultado. a vida virou uma grande entrevista no estilo ping-pong. responda logo ou caia fora. pensar pra responder? nem pensar! mas por trás daqueles que exigem respostas com os dedos apontados no nosso nariz, existe um cérebro que vem perdendo a capacidade de fazer perguntas. pergunta-se qualquer coisa, responde-se qualquer bobagem e assim vamos vivendo a lógica iterativa da qual fala o artigo abaixo.
boas perguntas geralmente demandam um tempo para serem respondidas. interessante é que essa aparente demora muitas vezes evita uma série de perguntas e respostas que não levam a lugar nenhum. então por que não "perder" tempo pensando antes de formular uma pergunta? minha triste constatação é de que essa habilidade foi se atrofiando ao longo do tempo.
o prejuízo é grande. quem não é capaz de fazer perguntas, perde junto a capacidade de questionar a si próprio. e quem não se questiona em geral gosta de auto-afirmar [têm os que se anulam também]. pessoas auto-afirmativas costumam ser chatas, egocêntricas, auto-referentes, arrogantes e quiçá, nocivas. além disso, perguntas mal feitas baixam o nível de exigência das respostas. logo, vamos perdendo também a aptidão de formular boas respostas, mesmo que as perguntas sejam claras. muitas vezes isso fica evidente quando vejo programas de entrevista em que o entrevistado responde tudo menos o que foi perguntado, como se tivesse levado um roteiro que fosse obrigado a repetir com indiferença. não há diálogo, apenas non-sense em forma de entretenimento.
de uma perspectiva pessimista, imagino um futuro onde os avatares humanos já virão de fábrica sem o aminoácido do questionamento. o ponto de interrogação vai deixar de existir na gramática. só restarão as exclamações, e os homens-bonecos vão gritar, gritar, sem se preocupar se estão sendo ouvidos.
[inspirado parcialmente no artivo do post anterior]
[só posso falar um pouco da banda ocidental. tenho esperanças de que a banda oriental seja pelo menos um bocadinho diferente]
boas perguntas geralmente demandam um tempo para serem respondidas. interessante é que essa aparente demora muitas vezes evita uma série de perguntas e respostas que não levam a lugar nenhum. então por que não "perder" tempo pensando antes de formular uma pergunta? minha triste constatação é de que essa habilidade foi se atrofiando ao longo do tempo.
o prejuízo é grande. quem não é capaz de fazer perguntas, perde junto a capacidade de questionar a si próprio. e quem não se questiona em geral gosta de auto-afirmar [têm os que se anulam também]. pessoas auto-afirmativas costumam ser chatas, egocêntricas, auto-referentes, arrogantes e quiçá, nocivas. além disso, perguntas mal feitas baixam o nível de exigência das respostas. logo, vamos perdendo também a aptidão de formular boas respostas, mesmo que as perguntas sejam claras. muitas vezes isso fica evidente quando vejo programas de entrevista em que o entrevistado responde tudo menos o que foi perguntado, como se tivesse levado um roteiro que fosse obrigado a repetir com indiferença. não há diálogo, apenas non-sense em forma de entretenimento.
de uma perspectiva pessimista, imagino um futuro onde os avatares humanos já virão de fábrica sem o aminoácido do questionamento. o ponto de interrogação vai deixar de existir na gramática. só restarão as exclamações, e os homens-bonecos vão gritar, gritar, sem se preocupar se estão sendo ouvidos.
[inspirado parcialmente no artivo do post anterior]
[só posso falar um pouco da banda ocidental. tenho esperanças de que a banda oriental seja pelo menos um bocadinho diferente]
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